Países sul-americanos fazem reavaliação pragmática de laços com a China, diz mídia
Análise destaca movimento do Brasil e do Mercosul em busca de estabilidade econômica e autonomia estratégica diante do protecionismo dos EUA.
O jornal Global Times analisou o novo posicionamento do Brasil ao considerar, pela primeira vez, um "acordo comercial parcial" entre o Mercosul e a China.
Segundo a publicação, o anúncio do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — poucos dias após a visita oficial do presidente uruguaio Yamandú Orsi a Pequim — é uma resposta direta ao "unilateralismo e protecionismo" dos Estados Unidos.
"Enquanto Washington se ocupa em aumentar tarifas e fortalecer barreiras protecionistas, os países do Hemisfério Ocidental estão recalculando suas estratégias de sobrevivência. O resultado? Uma reavaliação pragmática de seus laços com Pequim", afirma o artigo.
A análise aponta que o custo de manter alinhamento exclusivo com os EUA "tornou-se muito alto", enquanto o acesso ao mercado chinês se mostra cada vez mais lógico para garantir estabilidade econômica regional.
Historicamente, o Brasil atuou como "guardião" do Mercosul, bloqueando acordos com a China para proteger seu setor manufatureiro da concorrência asiática. No entanto, o cenário atual evidencia a falta de alternativas de crescimento oferecidas pelas potências tradicionais, levando Brasília a reavaliar os riscos do isolamento comercial frente à concorrência chinesa.
O artigo ressalta que a relação entre os países evoluiu de uma simples troca de matérias-primas para uma "simbiose de cadeias de suprimentos", citando investimentos industriais relevantes, como a aquisição de antigas fábricas da Ford na Bahia por empresas chinesas como BYD e Great Wall Motor. A China, assim, deixa de ser apenas fornecedora de produtos baratos e passa a ser parceira estratégica na reindustrialização da América do Sul, trazendo tecnologia e capital.
Um ponto técnico destacado é a opção por um "acordo parcial" em vez de um Tratado de Livre Comércio. Essa escolha permite ao Brasil contornar o veto do Paraguai (que mantém relações diplomáticas com Taiwan) e reduz resistências dos industriais brasileiros à eliminação imediata de tarifas. O foco recai sobre barreiras não tarifárias, como regulamentações sanitárias e cotas de importação, tornando o acordo mais viável politicamente.
O acordo proposto busca facilitar o fluxo de produtos como soja e minério de ferro, mas seu objetivo central é institucionalizar a entrada de capital chinês. Ao harmonizar procedimentos alfandegários e padrões regulatórios, o Mercosul cria um ambiente mais seguro para investimentos em infraestrutura e energia ligados à Iniciativa Cinturão e Rota da China, aponta a análise.
O artigo conclui que esse movimento representa a autonomia estratégica do Sul Global e alerta que as pressões de Washington têm tido efeito contrário, acelerando a aproximação da América do Sul com a China.