EDUCAÇÃO

"Doutor da quebrada" decodifica uso do sexo no funk como ferramenta política

Formado em Musicologia pela USP, professor e pesquisador Thiagson expõe a "estética da putaria" como forma de rebeldia política e autoafirmação de jovens periféricos

Por Misael Freitas Publicado em 09/02/2026 às 13:26
Divulgação

Pobre, preto e favelado está autorizado a sofrer, mas não pode gozar. O gozo da favela é sempre problematizado”. Essa máxima do doutor em Musicologia pela USP e professor de música Clássica, Thiago de Souza, o Thiagson, serve como o fio condutor das reflexões presentes em Putologia avançada - O Funk de pernas abertas: como sexo, política e música se misturam, lançamento da Matrix Editora

No livro, Thiagson discute o papel político dos conteúdos sexualmente explícitos nas letras de Funk como ferramentas para questionar a moralidade conservadora e a hipocrisia das classes dominantes. Fruto da tese de doutorado do autor, a obra estabelece uma ruptura drástica com a musicologia de tradição europeia, propondo que o Funk não seja apenas um objeto de estudo distante, mas uma lente para revelar as mazelas de uma sociedade marcada pelo racismo estrutural e pelo elitismo acadêmico. 

O professor mergulha no conceito de "putologia", uma provocação intelectual que une o termo popular "putaria" ao sufixo "logia", que indica estudo ou ciência. Ao defender a vertente do “Funk de Putaria” como uma das mais rebeldes e politizadas do gênero, ele argumenta que cantar sobre sexo e drogas força debates sociais profundos através do choque estético. A putologia também está relacionada com o direito ao prazer de corpos historicamente violentados e com a constante tentativa de criminalização do Funk como ferramenta de controle social e racial. 

Thiagson questiona as narrativas disseminadas como a "história oficial" do Funk, muitas vezes centradas em figuras palatáveis à mídia, e resgata a memória oral da favela para expor casos de apagamento de autoria e apropriação cultural. No plano da análise musical, discute profundamente a "engenharia reversa dos beats", utilizando ferramentas digitais para decifrar a complexidade rítmica e sonora que, segundo ele, as partituras tradicionais são incapazes de registrar. 

O musicólogo traça ainda uma genealogia técnica que vai desde a revolução do tamborzão no Rio de Janeiro, que trouxe de volta a percussão de matriz africana para o centro da eletrônica, até as tendências mais recentes e sombrias como a "bruxaria" e o "funk do mal" em São Paulo. Esse resgate busca desmascarar o preconceito de quem rotula o Funk como música "simples" ou "pobre", revelando uma sofisticação tecnológica que desafia as normas de conservatórios e academias. 

Ao longo das páginas, os leitores também conhecem a trajetória de Thiagson, marcada pela precariedade financeira que o levou a produzir conteúdo para plataformas adultas mesmo depois de conquistar o título de Doutor.  Ao relatar desafios pessoais, ele denuncia o que considera ser a falência de um sistema universitário que exige docilidade e conformidade estética enquanto ignora a realidade material de quem produz conhecimento nas margens. 

Putologia avançada apresenta uma "musicologia empretecida", que não pede licença para existir e que grita as verdades que muitos tentam silenciar. Ao escancarar a “função social da putaria”, o autor transforma a análise de batidas e letras em um estudo profundo sobre a alma de um Brasil que insiste em cantar, gozar e existir apesar de todos os mecanismos de repressão. 

Ficha técnica

Título: Putologia avançada - O Funk de pernas abertas: como sexo, política e música se misturam
Autoria: Thiagson 
Editora: Matrix Editora 
ISBN: 978-6556166322 
Páginas: 184 
Preço: R$ 62,00 
Onde encontrarMatrix EditoraAmazon 

Sobre o autor

Thiagson é doutor em Musicologia pela USP, professor de música, funkeiro, palestrante, escritor, compositor formado em Música Clássica e influenciador digital. Mestre e Bacharel em Música pela UNESP, é autor de livros sobre Música Clássica e primeiro músico a escrever um livro sobre Funk. Também desenvolve projetos musicais na favela Nova Titan em Santo André (SP). 

Redes sociais do autor 

Sobre a Matrix Editora  

Apostar em novos talentos, formatos e leitores. Essa é a marca da Matrix Editora, desde a sua fundação em 1999. A Matrix é hoje uma das mais respeitadas editoras do país, com mais de 1.100 títulos publicados e oito novos lançamentos todos os meses. A editora se especializou em livros de não-ficção, como biografias e livros-reportagem, além de obras de negócios, motivacionais e livros infantis. Os títulos editados pela Matrix são distribuídos para livrarias de todo o Brasil e também são comercializados no site www.matrixeditora.com.br.