Falta de qualificação já é o quarto maior entrave para a indústria, aponta CNI
Escassez de profissionais qualificados supera a marca de 23% das preocupações do setor, ficando atrás apenas de impostos, juros altos e demanda insuficiente.
Apesar da menor taxa de desemprego registrada desde 2012, a indústria brasileira enfrenta um desafio crescente: a falta de profissionais qualificados. Segundo nota técnica divulgada nesta segunda-feira (9) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a escassez de mão de obra especializada tem se intensificado, prejudicando a competitividade do setor e obrigando as empresas a investir mais em capacitação e requalificação de seus trabalhadores.
De acordo com a CNI, a ausência de profissionais qualificados se consolidou como um dos principais problemas do setor industrial, especialmente nos últimos cinco anos, após a pandemia de covid-19. Dados da Sondagem Industrial mostram que, entre 2015 e 2020, a preocupação com a falta de capacitação oscilava em torno de 5% das menções. Esse índice cresceu quase ininterruptamente desde então, alcançando 23% em 2024.
No segundo trimestre do ano passado, o problema atingiu 23,3% das indicações, o maior percentual desde o início da série histórica.
No levantamento mais recente, a falta de qualificação ocupa a quarta posição entre os principais entraves enfrentados pela indústria, ficando atrás apenas da elevada carga tributária, dos juros altos e da demanda interna insuficiente.
O impacto é ainda maior entre as pequenas empresas, onde 28,4% apontam a escassez de profissionais qualificados como segundo maior obstáculo, perdendo apenas para questões tributárias.
"Sem trabalhador qualificado, as empresas têm dificuldade para aumentar a produtividade, afetando tanto a busca pela eficiência quanto a redução de desperdícios. Na hora de capacitar os trabalhadores, elas esbarram em outro problema: as lacunas na formação educacional, que dificultam o aprendizado e desestimulam os trabalhadores", explica Mário Sérgio Telles, diretor de Economia da CNI.
A confederação também destaca a rápida transformação tecnológica e organizacional como um desafio extra, exigindo requalificação constante dos trabalhadores. Segundo o Mapa do Trabalho Industrial da CNI, três em cada cinco profissionais precisarão ser treinados até 2027, principalmente para alinhar suas competências às novas demandas do mercado.
Taxa de desocupação e informalidade
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a taxa de desocupação no trimestre encerrado em dezembro foi de 5,1%, a menor da série histórica. No entanto, 38% dos trabalhadores atuam na informalidade, sem registro ou proteção social.
Além disso, a CNI observa um desinteresse crescente, principalmente entre os mais jovens, por relações de trabalho tradicionais. Pesquisa do Datafolha, citada pela entidade, aponta que 59% dos brasileiros preferem atuar como autônomos, índice que chega a quase 70% entre jovens de 16 a 24 anos.