DISPUTA GEOPOLÍTICA

'Ato simbólico': remoção de monumento à China ilustra divisão do Panamá entre Pequim e Washington

Retirada de monumento chinês no Panamá expõe tensão entre influência dos EUA e da China no país centro-americano.

Publicado em 10/02/2026 às 16:55
Remoção de monumento chinês no Panamá destaca disputa de influência entre China e EUA sobre o Canal do Panamá. © AP Photo / Arnulfo Franco

Analistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, avaliam que a retirada de um monumento dedicado à amizade sino-panamenha acirrou o debate sobre a disputa de influência entre Estados Unidos e China no Panamá.

O Panamá mantém relações estratégicas com ambos os países, especialmente nas áreas de infraestrutura e logística. O Canal do Panamá, peça-chave do comércio global, é o principal foco dessa disputa geopolítica.

Em dezembro, a remoção de um monumento chinês erguido em 2004, na entrada da via interoceânica da cidade de Arraiján, gerou polêmica para o governo do presidente panamenho, José Raúl Mulino. A prefeita Stefany Peñalba ordenou a demolição, alegando danos à infraestrutura.

Mulino classificou a ação como uma "barbaridade" e determinou que o monumento seja restaurado no mesmo local, embora ainda não haja data definida para a reposição.

Especialistas entrevistados analisam o simbolismo por trás da retirada do monumento. Thales Carvalho, professor de Relações Internacionais da UERJ, afirma que a medida sinaliza um posicionamento no embate entre EUA e China.

"É um ato muito simbólico, que a Embaixada da China já repudiou, pois indica um claro alinhamento", afirma Carvalho.

Segundo ele, o episódio introduz um novo elemento na disputa global: a atuação de um agente subnacional, como a prefeita, em questões de alcance internacional.

"Não foi o governo do Panamá que tomou essa decisão. Pelo contrário, o governo criticou a remoção. Uma prefeita, enquanto agente subnacional, entra na disputa e acrescenta um ingrediente simbólico, mostrando que o embate ultrapassa o âmbito dos governos centrais", avalia.

Carvalho observa ainda que a China já buscava alternativas para diminuir a dependência do Canal do Panamá, como a diversificação de parcerias e rotas comerciais, inclusive terrestres na América do Sul e Central.

O analista destaca que, embora os EUA mantenham forte presença cultural na América Latina, a China tem investido em diplomacia cultural, como a abertura de institutos Confúcio, para ampliar sua influência na região.

"O monumento fazia parte dessa estratégia de diplomacia cultural chinesa e era um símbolo da presença chinesa no Panamá", pontua Carvalho.

A jornalista panamenha Betty Herrera considera a remoção do monumento uma ação atípica e inesperada, principalmente para a comunidade chinesa local, que financiou a obra por meio de doações.

"A população foi pega de surpresa, pois a demolição ocorreu às nove horas da noite, algo incomum. Surgiram propostas para que o local abrigue um monumento mais representativo da nacionalidade panamenha", relata Herrera.

Herrera acredita que a decisão foi motivada pela inexperiência da prefeita, e não por razões geopolíticas. Stefany Peñalba, de 32 anos, não tem experiência política e, segundo Herrera, agiu de forma isolada, sem comunicação prévia, justificando a remoção por questões de segurança.

"A estrutura do monumento apresentava riscos, e acredito que a prefeita agiu por conta própria, sem sofrer pressões externas", afirma a jornalista.

Apesar de buscar neutralidade entre China e EUA, Herrera ressalta que o Panamá mantém laços históricos e culturais mais estreitos com os Estados Unidos, principal parceiro comercial do país.

"Desde a construção do canal, temos uma relação muito próxima com os americanos. Isso se reflete na alimentação, cultura, comportamento, música e até no inglês, quase um segundo idioma para os panamenhos", conclui Herrera.

Por Sputnik Brasil