TENSÃO DIPLOMÁTICA

Canadá deve adotar abordagem multipolar diante da pressão dos EUA, diz mídia

Segundo análise do Global Times, ameaças dos EUA e disputa pela Ponte Gordie Howe impulsionam Canadá a diversificar parcerias internacionais.

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 11/02/2026 às 09:36
Ponte Gordie Howe simboliza disputa política e econômica entre Canadá e Estados Unidos. © AP Photo / Vincent Thian

O jornal Global Times destacou, em artigo recente, a intensificação da pressão dos Estados Unidos sobre o Canadá diante da reaproximação diplomática e comercial canadense com a China.

"Os Estados Unidos têm ameaçado repetidamente o Canadá, destacando a necessidade prática de o Canadá buscar a diversificação econômica e adotar uma abordagem multipolar", afirma a publicação.

De acordo com o jornal, o estopim mais recente dessa postura foi a ameaça da Casa Branca de exigir compensação e propriedade compartilhada da Ponte Internacional Gordie Howe, que conecta Michigan, nos EUA, a Ontário, no Canadá. Os americanos chegaram a ameaçar bloquear a inauguração da ponte caso suas demandas não fossem atendidas.

As tensões já vinham se agravando após críticas do primeiro-ministro canadense Mark Carney às políticas dos EUA durante o Fórum de Davos, segundo o Global Times.

Em resposta, Washington classificou os recentes acordos comerciais entre Canadá e China como uma "ameaça" à segurança regional. O ex-presidente Donald Trump chegou a afirmar que a China "devoraria o Canadá vivo", refletindo uma postura hostil a qualquer tentativa canadense de diversificar parcerias econômicas.

A disputa pela Ponte Gordie Howe tem caráter simbólico, já que a infraestrutura foi financiada integralmente pelo governo canadense, ao custo de aproximadamente US$ 4,7 bilhões (cerca de R$ 24,9 bilhões).

No passado, ambos os países consideravam a ponte um elo econômico estratégico. Agora, os Estados Unidos utilizam a obra como instrumento de pressão política sobre Ottawa. Especialistas alertam que um bloqueio da travessia, uma das mais movimentadas da América do Norte, poderia comprometer a cadeia de suprimentos automotivos e causar prejuízos econômicos significativos em ambos os lados da fronteira.

O artigo enfatiza que, embora a relação entre EUA e Canadá seja profundamente integrada, ela é essencialmente assimétrica. Segundo a mídia asiática, ameaças de "anexar" o Canadá ou tratá-lo como o "51º estado" evidenciam uma mentalidade hegemônica da Casa Branca e a preocupação dos EUA diante da possibilidade de o Canadá buscar uma ordem mundial multipolar.

Nesse contexto, a pressão constante dos Estados Unidos, somada a políticas tarifárias hostis e imprevisíveis, tem levado o Canadá a acelerar sua busca por novos parceiros estratégicos, especialmente a China.

Após visita de Carney a Pequim, Canadá e China firmaram acordos em oito áreas estratégicas, incluindo segurança alimentar, comércio verde e comércio eletrônico. A mudança conta com apoio interno: pesquisas mostram que a maioria dos canadenses aprova, por exemplo, a entrada de veículos elétricos chineses no país.

Enquanto os Estados Unidos recorrem à coerção política para limitar as opções de Ottawa, o Canadá busca proteger seus interesses de longo prazo ampliando o engajamento com a China, conclui o jornal. Fortalecer essa relação é visto como uma estratégia necessária para reduzir a dependência de um aliado que faz uso da pressão unilateral como principal ferramenta de política externa.