LITERATURA

Romance de estreia de Rafael Caneca expõe brutalidade dos campos de concentração do Ceará nos anos 1930

Por Veriana, da com.tato Publicado em 13/02/2026 às 13:15

Publicada pela editora Mondru, a obra Não volte sem ele marca a estreia na narrativa longa do escritor e servidor público Rafael Caneca, que utiliza a ficção histórica para revisitar um dos episódios mais brutais e silenciados da história brasileira: os campos de concentração criados pelo governo do Ceará durante a grande seca de 1932.

Com paratextos assinados pelos escritores Grecianny Cordeiro e Ronaldo Correia de Brito, o romance explora temas como memória, violência de Estado, esperança, fé e tragédias sociais, destacando-se pela linguagem precisa e pelos personagens densamente construídos.

Uma ficção que revive um capítulo apagado da história

A narrativa se passa em um período em que o governo cearense instituiu “campos de concentração”, então chamados de currais do governo, para impedir que sertanejos assolados pela seca migrassem para Fortaleza.

“Foram estruturas criadas para conter e segregar os mais pobres, sob uma violência estatal explícita, para evitar que os sertanejos pobres se deslocassem para Fortaleza e ‘sujassem’ a capital”, explica o autor. “Ainda assim, muitos sertanejos mantinham a esperança, amparados na sua fé e religiosidade”, contextualiza o escritor. 

Nesse cenário, Caneca recupera um passado que, segundo ele, “merece ser lembrado para que jamais se repita”.

Tomás e o encontro com a esperança em meio ao horror

O romance acompanha Tomás, jovem enviado pelo pai à capital em busca do

irmão Antônio. Sua travessia, marcada pela fome, pela seca e pela luta pela sobrevivência, reflete a saga de milhares de nordestinos da época.

Para Ronaldo Correia de Brito, o impacto do livro revela “a força e a permanência do Romance de 30 na nova geração de escritores”, à qual Caneca pertence. Já Grecianny Cordeiro afirma que “o sertão pulsa em cada página, assim como a coragem de um povo forjado na fé e na esperança”.

Da coletânea ao romance: o nascimento de Não volte sem ele

O livro surgiu dentro do Coletivo Delirantes, um coletivo de escritores do qual também fazem parte Stênio Gardel, Marília Lovatel e outros nomes. Ao retornar ao grupo, que organizava uma coletânea sobre fatos marcantes da história do Ceará ligados às antigas estações ferroviárias, Rafael escolheu o tema “A estiagem de 1932 e os campos de concentração / estação de Senador Pompeu”.

O autor escreveu, então, o conto “Patu”, mas percebeu que a história pedia mais fôlego. Assim, ao longo de dois anos de pesquisa e escrita, transformou o texto em romance. “Conhecer profundamente esse episódio me modificou. Reforçou sentimentos de repulsa por acontecimentos que não podem, de forma alguma, se repetir”, relata.