JUSTIÇA

'Na mão dele': sentença detalha condenação de médico que cobrou R$ 50 de pacientes do SUS

Ortopedista do Paraná foi condenado a 10 anos de prisão por exigir pagamentos de pacientes em situação vulnerável para procedimentos gratuitos pelo SUS.

Publicado em 14/02/2026 às 11:40
Lucas Saldanha

O médico ortopedista Lucas Saldanha Ortiz foi condenado pela Justiça do Paraná a dez anos de reclusão por cobrar e receber valores indevidos de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a sentença, Ortiz agia de forma consciente, escolhendo as vítimas mais vulneráveis para extorquir valores que variavam de R$ 50 a R$ 200, sob a justificativa de custeio de materiais como luvas, agulhas e anestesia em cirurgias que deveriam ser gratuitas.

De acordo com o juiz Murilo Conehero Ghizzi, da 1ª Vara Criminal de Toledo, Ortiz premeditava suas ações para evitar ser descoberto e responsabilizado. “O médico se aproveitava da delicada situação de saúde das vítimas para obter quantias indevidas, esclarecendo que os valores seriam destinados ao custeio de materiais ou ao anestesista”, destacou o magistrado. As vítimas, temendo pela própria segurança durante os procedimentos, acabavam aceitando os pagamentos.

O caso foi denunciado pela 4ª Promotoria de Justiça de Toledo e resultou na condenação de Ortiz por corrupção passiva, praticada 11 vezes entre 2015 e 2017. Além da pena de prisão, ele terá de pagar 250 dias-multa, cada um equivalente a meio salário mínimo vigente à época dos fatos.

‘Na mão dele’

Uma das pacientes relatou que Ortiz exigiu R$ 200, solicitando que o valor fosse entregue diretamente “na mão dele”, sem passar pela recepção. A promessa era de que, após o pagamento, a internação para cirurgia de quadril seria providenciada. Sem condições financeiras, a paciente não realizou a cirurgia de imediato. Sua nora chegou a conseguir o valor emprestado, mas, devido a complicações de saúde, o procedimento não foi realizado e o dinheiro não foi entregue ao médico.

Segundo a sentença, ao ser questionado sobre a cobrança, Ortiz teria dito apenas que a paciente estava “dando trabalho” e não especificou se o valor era para ele ou para algum colaborador, exigindo apenas que fosse entregue pessoalmente.

‘Se vira’

Em outro episódio, quando questionado sobre transporte para casa após a consulta, Ortiz teria respondido “se vira” à paciente que não tinha carro. A vítima afirmou que, até hoje, não conseguiu realizar a cirurgia e convive com fortes dores no quadril, o que a impede de permanecer sentada ou em pé por longos períodos.

Defesa do médico

Nos autos do processo, Ortiz alegou que a cobrança de R$ 50 era uma taxa repassada ao instrumentador cirúrgico, necessária para a realização dos procedimentos, já que o hospital não fornecia esses profissionais. Segundo ele, em cirurgias de maior porte, como as de joelho e quadril, dois instrumentadores eram necessários. Ortiz afirma que nunca deixou de operar pacientes que não pagaram e que os valores não eram destinados a ele, mas sim ao pagamento dos instrumentadores terceirizados, essenciais para os procedimentos.

O médico declarou ainda que recebia valores do SUS por meio de Autorização de Internação Hospitalar (AIH), mas que enfrentou atrasos de até quatro anos nos repasses do Hospital Bom Jesus, o que o levou a ingressar com ação judicial para receber os valores devidos.

Ortiz também relatou dificuldades estruturais no Hospital Bom Jesus, alegando que o local não fornecia instrumentador cirúrgico nem técnico de raio X, o que dificultava a realização das cirurgias. Ele ressaltou que, em casos de urgência e emergência, nunca cobrou valores dos pacientes, operando imediatamente quando necessário.

O espaço segue aberto para manifestação dos hospitais citados na denúncia.