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Estudo revela efeitos negativos de vídeos curtos no desenvolvimento infantil

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Publicado em 15/02/2026 às 14:55
Vídeos curtos em celulares podem afetar o desenvolvimento cognitivo de crianças, aponta estudo.

Pesquisadoras da Universidade de Macau identificaram que o consumo de vídeos curtos em redes sociais, especialmente por meio da rolagem contínua em celulares, impacta negativamente o desenvolvimento cognitivo de crianças, podendo desencadear ansiedade social e insegurança.

"O consumo compulsivo de vídeos curtos tem um impacto negativo no desenvolvimento cognitivo, podendo causar falta de concentração, ansiedade social e insegurança", afirmou Wang Wei, especialista em Psicologia Educacional da Universidade de Macau (UM) e autora do estudo Dependência de vídeos curtos, envolvimento escolar e inclusão social entre estudantes rurais chineses.

Segundo Wang, esse formato de conteúdo pode ser especialmente prejudicial para o público infantil.

"Nossa pesquisa indica uma correlação direta: quanto mais os estudantes consomem vídeos curtos, menos se envolvem com a escola."

Ela ressalta que, embora as necessidades psicológicas das crianças devam ser supridas fora do ambiente digital, as plataformas de vídeos curtos acabam atendendo esses desejos de forma imediata e sutil, graças a algoritmos personalizados e recursos de interação social.

Essa satisfação paralela, aponta a pesquisadora, "pode levar ao uso excessivo e até ao vício".

"A natureza estimulante e o ritmo acelerado dos vídeos curtos tornam-nos extremamente atraentes para os alunos", acrescenta Wang.

Anise Wu Man Sze, professora de Psicologia na Faculdade de Ciências Sociais da UM e coautora do estudo A relação das componentes afetivas e cognitivas no uso problemático de vídeos curtos, alerta ainda para a superestimulação proporcionada por esse tipo de conteúdo, o que prejudica ainda mais o desenvolvimento cognitivo saudável das crianças.

Wu destaca que a facilidade de acesso e a gratuidade dos vídeos curtos contribuem para esse cenário: "Esses vídeos estão sempre à mão, disponíveis a qualquer hora e em qualquer lugar".

Segundo ela, o comportamento de dependência muitas vezes surge de um "propósito funcional".

"É fundamental aumentar a conscientização, principalmente quando o uso passa a afetar a rotina diária, levando ao sacrifício do tempo em família, à negligência do sono ou ao uso inadequado, como durante as aulas", enfatiza Wu.

Além do design das plataformas e dos algoritmos, Wu aponta outros fatores que podem impulsionar a dependência, como o estresse cotidiano, o ambiente e até predisposições genéticas.

"Uma das principais razões para a dependência é a busca por escapar de situações desagradáveis, pressões ou conflitos", explica Wu, reforçando a necessidade de conscientização sobre os efeitos do consumo excessivo de vídeos curtos.

Quanto às intervenções, Wang Wei defende que é "muito importante" suprir as necessidades emocionais das crianças, ao mesmo tempo em que se promove o uso consciente da tecnologia e o desenvolvimento de habilidades de autorregulação, em vez de simplesmente restringir o acesso aos celulares.

Até dezembro de 2024, quase 1,1 bilhão de pessoas na China tinham acesso a vídeos curtos, sendo que 98,4% eram usuários ativos desse formato, segundo o Relatório Anual sobre o Desenvolvimento dos Serviços Audiovisuais na Internet, divulgado pelas autoridades chinesas.

O relatório ainda aponta que a indústria de vídeos curtos e transmissões ao vivo superou 1,22 trilhão de yuan (aproximadamente 149 bilhões de euros), com crescimento expressivo das microsséries e impacto da inteligência artificial na produção de conteúdo.

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