ARQUEOLOGIA • EUROPA

Estatueta neolítica de 7.500 anos revela simbolismo raro na antiga Europa agrícola

Descoberta em assentamento da cultura Starcevo-Cris, peça lança nova luz sobre crenças e rituais das primeiras comunidades agrícolas europeias.

Publicado em 16/02/2026 às 09:45
Estatueta neolítica de 7.500 anos revela detalhes simbólicos da cultura agrícola europeia. © Foto / MNCR – Museu Nacional dos Cárpatos Orientais

Uma estatueta de barro com cerca de 7.500 anos, encontrada nos arredores de Sfantu Gheorghe, Romênia, está ajudando pesquisadores a desvendar aspectos pouco conhecidos da vida espiritual das primeiras comunidades agrícolas europeias.

O artefato foi descoberto por arqueólogos do Museu Nacional dos Cárpatos Orientais (MNCR) durante escavações preventivas no sítio de Arcus – Platoul Targului, local em que seriam realizadas obras de expansão elétrica para a Arena Sepsi. O achado ocorreu em meio a vestígios de um assentamento datado entre 5.800 e 5.500 a.C., pertencente à cultura Starcevo-Cris, uma das primeiras tradições agrícolas do sudeste europeu.

No local, os pesquisadores identificaram restos de habitações, fragmentos cerâmicos, argila queimada e carvão. Entre esses materiais, emergiu a estatueta de argila, representando uma figura feminina de braços estendidos, dentro de uma estrutura com mais de sete milênios de existência.

Medindo apenas seis centímetros, a peça surpreende pelo detalhamento: modelada em argila misturada com palha e areia, foi queimada em alta temperatura, adquirindo coloração vermelho-tijolo. Os olhos em formato de "V", o nariz ovalado e as linhas que sugerem cabelos presos em coque compõem um dos mais antigos registros de penteado feminino ao norte do Danúbio.

Os braços erguidos remetem a gestos de oração ou invocação, frequentes na simbologia neolítica. Duas pequenas protuberâncias no torso identificam a figura como feminina, mas, diferente das tradicionais "Vênus" pré-históricas, a silhueta é esguia e discreta. Essa diferença estilística, aliada à raridade de estatuetas na cultura Starcevo-Cris, sugere variações regionais ou funções simbólicas específicas.

O propósito exato do artefato permanece incerto: pode ter sido utilizado como oferenda votiva, amuleto doméstico ou peça ritual. Para os arqueólogos, como dr. Dan-Lucian Buzea e dr. Dan-Calin Stefan, descobertas como essa estabelecem uma ponte emocional e cultural com os primeiros agricultores da região. Mais de sete milênios após sua confecção, a pequena estatueta de Arcus segue instigando reflexões sobre crenças, rituais e a busca humana por sentido, demonstrando que mesmo os menores artefatos podem guardar grandes histórias.

Por Sputnik Brasil