RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Visita de Lula à Coreia do Sul reflete estratégia de diversificação do BRICS, afirmam especialistas

Por Sputinik Brasil Publicado em 23/02/2026 às 18:15
© Divulgação / Ricardo Stuckert

Com acordos em comércio, tecnologia e minerais críticos, viagem de Luiz Inácio Lula da Silva à Coreia do Sul reforça busca brasileira por ampliar presença na Ásia e fortalecer articulações multilaterais como o BRICS.

A visita de Estado do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, à República da Coreia marca um novo momento nas relações entre os dois países, que foi elevada ao nível de parceria estratégica com a adoção de um plano de ação plurianual e ampliação do diálogo político e econômico

Convidado pelo presidente Lee Jae-myung, Lula firmou dez acordos em áreas como saúde, agricultura, ciência e tecnologia, empreendedorismo, segurança e minerais críticos. A visita também mobilizou o setor produtivo de ambos os países com a realização do Fórum Empresarial Brasil–Coreia, reunindo centenas de empresa.

Também foram firmados entendimentos na área cultural, como o intercâmbio e o turismo, que vem crescendo significativamente nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a agenda presidencial incorpora uma dimensão política e simbólica

Durante os eventos oficiais, Lula destacou a convergência histórica entre os dois países na defesa da democracia, lembrando processos de redemocratização e desafios institucionais recentes. Após a reunião bilateral com Lula, Lee disse que a Coreia do Sul pretende retomar negociações com o Mercosul, que estão interrompidas desde 2021.

À Sputnik Brasil, especialistas comentam como essa aproximação de Brasília com Seul tem aplicações na economia, na tecnologia e até na geopolítica.

Relação Brasil-Coreia do Sul

Nas últimas duas décadas, empresas sul-coreanas ampliaram sua presença no mercado brasileiro, sobretudo nos setores automotivo, eletrônico, naval e de infraestrutura. Montadoras como a Hyundai instalaram fábricas no país e consolidaram o Brasil como base regional de produção, enquanto grupos como a Samsung e a LG expandiram centros industriais e de pesquisa em eletrônicos e telecomunicações. No setor pesado, a Hyundai Heavy Industries participou de projetos ligados à indústria naval e offshore.

No sentido inverso, o Brasil se firmou como fornecedor relevante de soja, carne, celulose e minério de ferro para a indústria sul-coreana, além de insumos estratégicos ligados à transição energética, como níquel e lítio. Nesse contexto, a digitalização da economia, a corrida por semicondutores e a disputa global por minerais críticos passaram a redefinir o peso da parceria bilateral.

Segundo Daniela Mazur, pesquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Comunicação na Universidade Federal Fluminense (UFF), especializada em estudos coreanos no âmbito da comunicação, a aproximação entre Brasil e Coreia do Sul não deve ser lida apenas sob a ótica comercial, mas também como parte de uma estratégia mais ampla de política externa brasileira.

"O Brasil, sob o terceiro governo Lula, tem apostado na ampliação de seu alcance global para além dos limites ocidentais, reconhecendo a multipolarização como uma realidade do sistema internacional contemporâneo."

A pesquisadora observa que iniciativas como o fortalecimento do BRICS refletem essa orientação, ao priorizar parcerias com países fora do eixo tradicional de poder. Para ela, a intensificação do diálogo com países asiáticos faz parte desse movimento.

"A Ásia, em sua vasta pluralidade, é particularmente relevante: cerca de 60% da população mundial vive no continente, o que evidencia a importância de diversificar e expandir a presença brasileira nesses países, assim como de fomentar maior inserção asiática no Brasil."

Nesse cenário, a Coreia do Sul aparece como um parceiro estratégico já consolidado, tanto pelo volume de comércio quanto pelos investimentos industriais. Em 2025, o país figurou entre os principais parceiros comerciais do Brasil, com superávit brasileiro nas trocas bilaterais.

Já na avaliação do professor Evandro Menezes de Carvalho, docente de direito internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Universidade de Língua e Cultura de Pequim, a visita presidencial também deve ser lida dentro de um movimento mais amplo de reposicionamento brasileiro na Ásia.

"O governo Lula está buscando reposicionar o Brasil na Ásia para ampliar as parcerias brasileiras com os países do continente asiático", diz Carvalho.

Embora a China permaneça como principal parceiro comercial do Brasil, a aproximação não representa um afastamento de Pequim, mas sim uma estratégia de diversificação que precisa incluir o diálogo com ainda mais nações asiáticas, como a Índia, Turquia e Japão.

Essas nações, diz, tem capacidade para impulsionar a capacidade tecnológica brasileira, fortalecer a educação pública e ampliar a soberania nacional. Além disso, a crescente rivalidade entre Washington e Pequim torna ainda mais relevante a ampliação das opções diplomáticas brasileiras. "É muito importante que o Brasil saiba contrabalançar suas relações com esses dois países e isso passa por ampliar as suas parcerias com outras nações."

"O Brasil desenvolveu uma política externa para a Ásia que, embora tenha sido relativamente improvisada, tem proporcionado ao país um posicionamento interessante na região. O Brasil é fundador do BRICS, do Novo Banco de Desenvolvimento e é membro do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, o que reforça a relevância do país como ator internacional que deve evitar depender excessivamente da relação com China e EUA".

Ao comentar a possibilidade de avanço nas negociações entre o Mercosul e a Coreia do Sul e os temores de que isso contribua para a desindustrialização nacional, Carvalho avalia que os riscos para a indústria brasileira não decorrem principalmente dos acordos comerciais.

"A indústria brasileira pode perder competitividade muito mais em razão da macroeconomia do que necessariamente em razão de um acordo internacional com outros parceiros. No momento em que o mercado financeiro confere retornos elevados ao investidor sem precisar produzir nada, não se criam as condições para o desenvolvimento do setor industrial".