RECONEXÃO E TURISMO

Chance de conexão ancestral ou atrativo turístico: por que o Benin está 'distribuindo' cidadania?

Nova lei beninesa permite que descendentes de africanos escravizados solicitem cidadania; medida é vista tanto como reparação histórica quanto estratégia econômica.

Publicado em 27/02/2026 às 18:45
Brasileiros buscam cidadania no Benin em busca de reconexão ancestral e valorização cultural. © AP Photo / Sunday Alamba

Montar a árvore genealógica e reconhecer os traços da ancestralidade é um desafio incalculável para a população negra nas Américas. A escravidão deixou pouco ou nenhum documento para registrar a história de pessoas como Clayton Muniz, brasileiro que pretende ir ao Benin para conhecer mais sobre seus antepassados.

Muniz, analista de treinamento, buscou um teste genético movido pelo desejo pessoal de entender melhor a própria história e as origens familiares. O resultado apontou vínculos com o território onde hoje está o Benin, na África Ocidental.

Em 2024, o governo beninense instituiu uma lei de reconciliação que permite a pessoas com ascendência afrodescendente candidatarem-se à cidadania do país. O processo pode ser realizado online, por meio da plataforma digital My Afro Origins, lançada pelo governo no ano passado.

O caminho de Muniz, segundo ele, conta com a assessoria de um escritório especializado em imigração.

Sobre a obtenção do passaporte, Muniz ressalta que o objetivo é conhecer a própria história e "saber de onde veio e como é a sua cultura em si". Ele espera realizar a viagem entre o final deste ano e o início do próximo, em busca de uma conexão aguardada há muito tempo.

Sènakpon Fabrice Fidèle Kpoholo, doutor em educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é beninense e viveu cerca de dez anos no Brasil. Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, ele relatou, diretamente do Benin, a experiência de grupos que buscaram a cidadania e visitaram o país após testes genéticos indicarem conexão ancestral.

Com vivências dos dois lados do Atlântico, Fabrice destaca a forte conexão criada pelos visitantes ao chegarem ao Benin.

"Uma coisa que a gente viu com esse grupo é essa questão de identificação e de pertencimento quando eles chegaram aqui. Eu vi muita gente caindo em lágrimas, gente se sentindo literalmente em casa quando chegou aqui; [...] pessoas que dizem que parece que sempre estiveram aqui".

"Quando você ainda está do outro lado do Atlântico, parece muito estranho, parece distante, mas quando você vem aqui, pisa no chão, caminha pelos lugares, vê o povo, olha nos olhos, você acaba pensando: parece que aqui também é minha casa, eu sempre estive aqui", completa.

Segundo o doutor em educação, a população do Benin ainda não assimila totalmente os "novos cidadãos", já que a política é recente. Para muitos, trata-se apenas de turistas visitando o país.

O turismo, inclusive, pode ser um dos objetivos do governo do Benin ao adotar a estratégia de oferecer cidadania.

"É uma questão de reparação histórica, mas também não podemos negar, vendo todas as ações feitas no país, especialmente no setor de turismo, que há também uma estratégia econômica", afirma Fabrice.

Para Milton Guran, professor, antropólogo e autor do livro "Agudás - os brasileiros do Benin", a medida do governo é, sobretudo, uma mobilização para fomentar o turismo.

Em entrevista ao podcast, Guran opina que a administração do país está "transformando o contencioso de país escravocrata em motivo de turismo".

"É um factóide político que se alinha a um projeto econômico. Por trás desse projeto econômico há cassinos, jogos; estão preparando o país para ser um hub de cassinos na África Ocidental", atesta.

O antropólogo acrescenta que, para ele, a iniciativa parece "um lobo em pele de cordeiro" e classifica a política como "desrespeito a todo o contexto histórico e existencial da própria diáspora africana".

Por Sputnik Brasil