Abiquim avalia efeitos indiretos do conflito entre EUA e Irã sobre energia, fertilizantes e petroquímicos
Entidade destaca riscos para custos industriais, inflação e segurança produtiva diante de tensões no Oriente Médio
A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) afirma que, embora não haja ruptura operacional nas cadeias de fornecimento de produtos químicos para o Brasil devido ao conflito entre os Estados Unidos e o Irã, os impactos ocorrem de maneira indireta e sistêmica. Os setores de energia, fertilizantes, petroquímicos básicos e o câmbio são os principais pontos de atenção, segundo a entidade.
De acordo com a Abiquim, o Irã produz cerca de 3,5 milhões de barris de petróleo por dia, e o Estreito de Ormuz responde por aproximadamente 20% da oferta e 25% do comércio marítimo global de petróleo.
"Qualquer restrição prolongada ao tráfego na região pode pressionar o preço do barril Brent, afetando diretamente a nafta petroquímica — principal insumo da indústria química brasileira", destaca a associação em nota.
O Brasil é exportador líquido de petróleo, mas depende da importação de derivados como diesel, GLP e Nafta. Nesse contexto, um aumento sustentado do Brent tende a impactar custos industriais, fretes internacionais e a inflação doméstica.
Segundo cálculos da Abiquim, caso o Brent suba US$ 20, a custo variável dos petroquímicos aumenta de forma relevante, podendo reduzir o spread petroquímico entre 10% e 25%, a depender das condições de mercado.
Além disso, o Irã é importante exportador de uréia e amônia, e o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. “Eventual restrição das exportações iranianas tende a elevar o preço da uréia nitrogenada, impactando diretamente o agronegócio, pressionando alimentos e encarecendo insumos nitrogenados usados pela própria indústria química”, ressalta a nota.
A entidade também observa que o Irã é grande exportador de metanol e intermediários como formaldeído, resinas termofixas, MTBE e ácido acético. Caso haja restrição na oferta desses produtos, os preços globais devem subir, exigindo custos de produtores de resinas e especialidades no Brasil.
Por fim, a Abiquim aponta que conflitos no Oriente Médio costumam gerar fluxo para ativos considerados mais seguros, como dólar e Treasuries, resultando em desvalorização do real e maior volatilidade cambial. “Um câmbio mais depreciado favorecendo exportadores de commodities, mas encarece moedas industriais e investimentos em Capex com equipamentos importados”, complementa a associação.
A Abiquim traçou três cenários possíveis para o conflito: o primeiro, de alta temporária do petróleo, volatilidade cambial moderada e impacto inflacionário controlável; o segundo, com o bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, elevando o Brent acima de US$ 100, provocando pressão inflacionária global, contratos financeiros mais longos no Brasil e impacto elevado sobre fertilizantes e nafta; e o terceiro, considerado o pior cenário, seria um "choque energético persistente", com redesenho das cadeias de abastecimento e impacto severo sobre a indústria química global.
“O cenário atual reforça a centralidade de estratégias estratégicas para o País e para o desenho de futuras políticas industriais voltadas à redução da vulnerabilidade energética em cadeias essenciais, bem como à diminuição da dependência de insumos importados — como a nafta petroquímica — e de produtos químicos estratégicos, a exemplo dos fertilizantes nitrogenados”, afirma a Abiquim.
A associação conclui que seguirá monitorando atentamente os desdobramentos do conflito, defendendo soluções diplomáticas e ressaltando a importância de políticas estruturantes capazes de ampliar a resiliência, a competitividade e a segurança produtiva da indústria química brasileira.