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Brasileiro-libanês relata fuga de 24 horas do sul do Líbano em meio a bombardeios

Por Por Sputinik Brasil Publicado em 04/03/2026 às 23:08
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Em entrevista à Sputnik Brasil, Hadi Cheaitou, brasileiro-libanês que deixou o sul do Líbano em direção a Beirute, relatou a mudança caótica após notícias na região, em meio a taques de Israel na região.

Nesta terça-feira (3) a Força Aérea de Israel afirmou que centenas de caças e aeronaves atingiram centenas de alvos no Líbano e que pelo menos 60 alvos ligados ao Hezbollah no sul do Líbano foram atacados, incluindo depósitos de armas, lançadores de foguetes e centros de comando.

O jovem de 23 anos contou que por volta das três da manhã de domingo, mensagens nos celulares informaram que teriam atacado lojas de cidades, incluindo a sua. Cheaitou contou que a família precisou sair às pressas deixando pertences e casa na região de Tiro Sul. Agora está em Beirute, na capital, e falou que o clima no país é de medo e apreensão.

"Fiquei 24 horas no caminho. Um caminho que levaria uma hora e meia em circunstâncias normais. Fui fugindo em um carro com meu irmão, minha família, minha mãe, meu pai", contou ele. "Minhas irmãs em outro carro. A maioria do tempo sem sinal, sem conseguir se comunicar, preocupada ouvindo bombas".

Ele falou sobre congestionamentos, carros quebrados, falta de combustível e pessoas transitadas pelas estradas, mas também solidariedade entre os libaneses.

"Tinha gente andando meia hora, uma hora até um posto para conseguir gasolina. Vi gente distribuindo água e comida para quem estava precisando."

A chegada a Beirute foi um rompimento a princípio, mas ele teme que a capital libanesa em breve também não seja mais seguro:

"Primeiro, eles tinham ameaçado algumas cidades. Hoje saiu a notícia de que todo o sul do Líbano tem que evacuar [...] Parece que vai crescer, porque dessa vez o Irã também está na guerra, mas a gente não sabe pra onde vai. Ninguém sabe exatamente. Tomara que não, mas parece que vai ser uma guerra difícil que vai ter muita destruição", lamentou.

Em Beirute, ele disse que os hotéis estão cheios e muitas pessoas dormindo na rua e dentro de carros. "Muito difícil de ver", comentou com tristeza.

"As pessoas que não têm lugar para fugir, estão dormindo na rua. Mas os restaurantes estão cheios, as pessoas precisam sair para comer, ir para os lugares, os hotéis estão cheios, estão se virando. E o povo está se ajudando".

A preocupação também aumenta em relação aos familiares e amigos que não poderiam deixar o sul do país, destacou Hadi Cheaitou.

"A gente fica preocupada com os nossos familiares, nossas casas, sem poder voltar. E agora a gente não sabe para onde a gente vai e quanto tempo vamos ter que ficar esperando até poder voltar à nossa casa", lamentou o rapaz.

Os avós também ficaram com o tio na cidade:

"Estão tentando convencê-los a sair, mas também eles só vão sair se tiverem um apartamento disponível para eles virem ficar também, porque uma pessoa de idade já saiu de várias guerras, eu entendo meu avô, vai ter que sair mais uma vez, sem saber quando volta, vai sofrer. Ele já não aguenta mais [...] ele fala que se morrer lá ficará mais feliz do que sofrer indo embora de casa de novo", relacionado.

Jogador profissional de futebol no Líbano, Cheaitou disse que precisou interromper suas atividades desde a semana passada com o cancelamento dos jogos: "agora estou aqui sem poder exercer minha profissão, que eu amo muito", disse.

"Explodiram prédios, casas. Não estão mostrando, mas estão destruindo no sul do Líbano, nossas cidades, estão destruindo muito. A gente aqui, que é do Líbano, não tem tanta noção, não está sabendo o que está acontecendo. Imagina aí como a mídia não vai mostrar", alertou.

Brasileiros em Beirute

Com a maior população de brasileiros que vive no Oriente Médio, o Líbano concentra cerca de 12 mil brasileiros, conforme o último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A chancelaria brasileira informou que até o momento não havia registros de vítimas brasileiras no país.

O Itamaraty acrescentou que "acompanha, com grande preocupação, a extensão do atual conflito no Oriente Médio para o Líbano, com o lançamento de projetos pelo Hezbollah contra Israel e os ataques israelenses contra o território libanês, incluindo Beirute".

O governo informou que a embaixada no Líbano segue em contato com as comunidades, mas não informou se serão realizados novos voos de repatriação, como ocorreu em 2024, em meio à escalada do conflito na Faixa de Gaza.