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Embaixador do Brasil no Irã: derrubar o regime será tarefa sangrenta

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Publicado em 09/03/2026 às 12:43

O embaixador do Brasil no Irã, André Veras, avalia que a derrubada do regime islâmico por forças militares estrangeiras seria uma tarefa “hercúlea, sangrenta” e custosa, que ocasionaria perdas econômicas globais.

“Não haveria uma possibilidade de mudança [do regime iraniano] ou de algum fim deste conflito se fôssemos pensar apenas da perspectiva de ataques [exclusivamente] aéreos”, disse Veras, ao ser entrevistado pelo jornalista José Luiz Datena, durante o programa Alô Alô Brasil , transmitido pela Rádio Nacional , nesta segunda-feira (9).

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“[Daí] uma discussão sobre o [possível] envio de soldados”, continuou o embaixador, apontando as dificuldades que as tropas estrangeiras enfrentariam em uma eventual incursão terrestre, como as dimensões do território iraniano, apresentadas por um terreno montanhoso, e a própria capacidade de intervenção militar do Irã. O embaixador ressalta que no Irã a situação é diferente da encontrada pelos EUA em um passado próximo.

"Então, aqui, a coisa vai exigir um pouco mais de esforço se você quiser, realmente, romper o regime. E acho que será uma tarefa hercúlea. Sangrenta", afirmou Veras.

Segundo o embaixador, dez dias após Estados Unidos e Israel iniciaram os primeiros ataques aéreos contra alvos em território iraniano , matando o líder supremo do país , o aiatolá Ali Khamenei, e centenas de civis, serviços básicos como o fornecimento de água, luz e gás, continuando funcionando e a população tenta manter a rotina, demonstrando uma resiliência infraestrutural.

"O comércio está aberto. As escolas estão tendo aulas remotamente. Os mercados continuam abastecidos. Não há corte de energia, de água ou de gás, mas a gasolina está sendo racionada. Não só por causa de grandes ataques, mas porque, antes mesmo do início da guerra, o Irã já estava passando por uma limitação de sua capacidade de refino", comentou Veras.

Para o embaixador, outro ponto que demonstra a solidez institucional do Irã foi a rápida substituição de Khamenei, que há 36 anos chefiava o Estado, por seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei , de 56 anos.

A Assembleia dos Especialistas (ou dos Peritos) escolheu Seyyed no fim de fevereiro, dias após o pai e parte da família dele serem mortos por bombas lançadas sobre a residência do antigo aiatolá. A escolha foi confirmada neste domingo.

"O Irã está muito bem estruturado legalmente. E o sistema tem uma resiliência muito grande. A morte, ou qualquer desaparecimento de [qualquer pessoa que ocupe] qualquer função tem um processo automático de substituição e nomeação do substituto", avaliou Veras.

Críticas

Para o embaixador, a escolha de Seyyed pode alimentar as críticas internacionais ao regime iraniano, que desde o ano passado é alvo de protestos contra o aumento do custo de vida e a repressão política aos opositores, já que a atual teocracia islâmica dos aiatolás se distribuiu em 1979, alterando a monarquia autocrática do xá Reza Pahlavi.

"A revolução islâmica foi feita contra um regime hereditário. E, agora, assumir o filho [de Ali Khamenei], cria uma impressão de que o sistema substituído permanece, de outra forma", ponderou o embaixador.

Veras destacou que, enquanto o pai estava vivo, Seyyed era como um “coadjuvante nas sombras”.

"Ele tem uma ligação muito forte com a Guarda Revolucionária e com os setores mais conservadores dos clérigos. O que faz com que as pessoas, aqui [no Irã], avaliem que, neste clima de contestação ao sistema islâmico, [sua escolha] seja uma dura resposta do Estado. Não só à insatisfação interna, como ao sistema contrário [ao regime] fora do país.", comentou Veras.

De acordo com o embaixador, até o momento, não houve necessidade do governo brasileiro discutir a eventual realização de uma operação para retirar brasileiros e suas famílias do Irã, seja porque as fronteiras terrestres com as nações vizinhas são abertas e têm serviços de rota para quem deseja deixar o país, seja porque há poucos brasileiros vivendo no Irã – cerca de 200 pessoas, principalmente mulheres casadas com iranianos.

Veras acrescentou que ainda assim tem contato diário com as chefias do Itamaraty, que estão informando o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, constantemente. O embaixador relata que a embaixada vem acompanhando casos pontuais, sendo a principal demanda os pedidos de documentos e vistos.

Embora entenda que a resistência aos ataques estadunidenses e israelenses é uma questão “de vida ou morte” para a continuidade do regime iraniano, o que torna a rendição excepcional, Veras não descartou uma solução diplomática, negociada.

Na avaliação dele, o Irã precisa do fim das avaliações econômicas impostas pelos EUA, enquanto Donald Trump – e o mundo – precisa “de paz para que a economia global funcione e as rotas comerciais sejam mantidas”.

“Mesmo que alguns possam pensar que o [eventual controle do] suficiente de petróleo vai favorecer este ou aquele país, em uma economia globalizada, todos perdem [com uma guerra]”, anuncia Veras

O embaixador acrescentou que os custos da continuidade da guerra seriam altos para todos os lados.

"Há espaço [para uma solução diplomática] porque os custos da guerra estão aumentando muito. Acho que isto traz um pouco mais de racionalidade à condução do processo", concluiu Veras.