INTERNACIONAL

Por que a Rússia pode ser a solução para uma 'saída honrosa' dos EUA do conflito com o Irã?

Por Sputinik Brasil Publicado em 09/03/2026 às 21:50
© Sputnik / Vladimir Astapkovich / Acessar o banco de imagens

A conversa telefônica entre os presidentes de Estados Unidos e Rússia, Donald Trump e Vladimir Putin, respectivamente, nesta segunda-feira (9), reforça, conforme analistas, que Moscou pode despontar como mediador para uma saída diplomática para as tensões no Oriente Médio.

De acordo com o Kremlin, a conversa que durou cerca de uma hora entre as lideranças foi objetiva, franca e construtiva. Entre os assuntos estiveram as situações na Ucrânia, Venezuela e principalmente no Irã. Ambos não conversavam diretamente desde o final de dezembro e, talvez, a escalada das tensões no Oriente Médio e suas prontas consequências, como o aumento do preço do petróleo, tenha acelerado o diálogo.

Durante a conversa, segundo Yuri Ushakov, assessor do presidente da Rússia, Putin expressou uma série de considerações visando uma rápida resolução política e diplomática do conflito iraniano, inclusive à luz de seus contatos com os líderes dos países do Golfo Pérsico, com o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, e com os líderes de vários outros países.

A posição do líder russo demonstra, conforme Vitor Stuart de Pieri, professor do Departamento de Geografia Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o protagonismo importante que Moscou ostenta no cenário internacional.

"A Rússia é um ator importante na resolução desse problema em função de um bom diálogo com o governo iraniano, um relativo diálogo com os Estados Unidos e com os países afetados ali, os países árabes afetados nesse conflito".

Para os analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, a posição russa se torna ainda mais forte dada a crise das instituições multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), e o pouco respeito que os EUA demonstram, muitas vezes, por esses organismos.

"O presidente Donald Trump subverteu a ordem internacional. Ele rompeu a aliança atlântica, se afastou da OTAN e ele desdenha abertamente de todo o sistema multilateral comandado pela ONU. Mas se há uma coisa que ele respeita é o poder dos Estados. O poder do Estado russo e o poder do Estado chinês. Ele reconhece esses dois poderes, esses dois Estados como iguais", destaca Williams Gonçalves, professor de relações internacionais aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Nesse sentido, ele reforça que a conversa entre os dois líderes nesta segunda-feira aconteceu em pé de igualdade e que Trump respeita a opinião do presidente Putin. Na esteira dos acontecimentos, o analista afirma que a posição da liderança russa é encontrar uma saída diplomática antes que um colapso na economia global ecloda.

Conforme Gonçalves, já há uma crise econômica global devido à elevação rápida do preço do petróleo. "Isso vai determinar um desarranjo econômico em todo o mundo porque o petróleo é uma commodity básica para toda a produção industrial".

'Irã não é a Síria ou a Líbia'

O professor de relações internacionais da UERJ aponta que o presidente dos EUA criou uma situação de difícil reversão a partir dos termos que ele coloca. Trump "apostou todas as fichas na ideia de que poderia mudar o sistema de governo do Irã, como se o sistema de governo do Irã houvesse sido imposto de fora para dentro e que alguma potência de fora poderia reverter esse processo".

Entretanto, ao menos de imediato, a ideia não funcionou. Agora, conforme acrescenta Gonçalves, os norte-americanos tentam intimidar os iranianos lançando ataques massivos junto de Israel.

"Os iranianos têm uma unidade nacional, o Irã não é a Líbia, o Irã não é a Síria; o Irã tem uma unidade nacional e está dando uma resposta bastante forte, bastante dura".

Além disso, ao contrário do que talvez imaginavam Estados Unidos e Israel, o conflito pode se estender e Trump, segundo de Pieri, tem uma visão equivocada da guerra.

"O Irã é uma potência regional que está utilizando uma estratégia de guerra irregular. Ele está atacando os postos de petróleo, os países que produzem, está intercedendo no estreito de Ormuz. Essa guerra, se ela se ampliar muito, tende a ter um impacto global, inclusive, nos próprios Estados Unidos a curto prazo. Acho que os preços do petróleo já vão impactar diretamente agora na inflação estadunidense. A gente tem aí uma leitura equivocada do Trump que está numa situação muito difícil internamente", afirma o analista.

O cenário, portanto, é de incerteza para Washington, conforme análise dos especialistas. Gonçalves sinaliza que uma solução nos termos propostos por Trump é "muito difícil" e talvez a única porta para uma saída honrosa para "um conflito que ele inventou" seja "aceitar uma mediação da China e da Rússia" para negociar com o Irã.