O quarentão que ainda decide vagas de emprego na era da IA
Criado em 1985, o Excel segue entre as habilidades mais citadas em anúncios de emprego e permanece central nas decisões de contratação, mesmo em um mercado cada vez mais orientado por inteligência artificial.
Em um ambiente corporativo que fala diariamente sobre automação, algoritmos e inteligência artificial generativa, pode parecer improvável que um software lançado nos anos 1980 continue influenciando decisões de contratação. Mas é exatamente isso que acontece com o Excel.
Quase 40 anos após seu lançamento, a planilha da Microsoft permanece como requisito frequente em processos seletivos. Em muitas empresas, o domínio da ferramenta deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser critério básico para entrada no mercado.
Os números ajudam a explicar essa permanência. Uma análise conduzida pela Course Report, com base em mais de 12 milhões de anúncios de emprego publicados na plataforma Indeed, identificou que o termo “Microsoft Excel” apareceu em aproximadamente 531 mil vagas, volume superior ao de linguagens como Python e SQL, por exemplo.
O Excel é um software de planilhas eletrônicas que permite organizar, cruzar, calcular e modelar dados. Na prática, é utilizado para estruturar relatórios financeiros, projetar cenários, acompanhar indicadores de desempenho, consolidar informações de diferentes áreas e apoiar decisões estratégicas.
Essa função permanece relevante mesmo em um ambiente corporativo dominado por sistemas mais sofisticados.
Empresas utilizam ERPs (Enterprise Resource Planning), plataformas integradas que reúnem dados de finanças, estoque, compras e operações. Adotam CRMs (Customer Relationship Management) para gerenciar relacionamento com clientes e vendas. E recorrem a ferramentas de Business Intelligence (BI), que transformam grandes volumes de informação em dashboards — painéis visuais com gráficos e indicadores consolidados.
Esses sistemas estruturam e organizam dados dentro de fluxos definidos. O Excel, por sua vez, oferece um ambiente de modelagem flexível. É nele que profissionais reorganizam informações, simulam cenários, cruzam variáveis de diferentes fontes e constroem análises personalizadas sem depender de desenvolvimento técnico ou projetos complexos.
Por isso, especialistas costumam descrevê-lo como uma espécie de “canivete suíço” do mundo corporativo.
“É comum que empresas utilizem sistemas estruturados para controlar operações, mas recorram ao Excel quando precisam fazer análises específicas, consolidar dados ou simular projeções”, afirma Alfredo Araújo, especialista em Excel da Hashtag Treinamentos.
O avanço da inteligência artificial trouxe novos recursos para dentro da própria planilha. Ferramentas como o Microsoft Copilot já atuam no Excel, sugerindo fórmulas, estruturando tabelas e criando gráficos sob comando.
Mas a automação não elimina a necessidade de entendimento técnico. “A inteligência artificial responde ao comando que recebe. Se o profissional não entende quais variáveis cruzar ou como interpretar um indicador, a tecnologia pode apenas automatizar um erro com mais velocidade”, afirma Araújo.
Além disso, nem todo dado corporativo pode ser enviado a ferramentas externas por questões de confidencialidade. Em muitos casos, a análise precisa ocorrer dentro do próprio ambiente interno.
Outro ponto recorrente em processos de transformação digital é que a simples migração para sistemas mais sofisticados não resolve desorganização estrutural. Transportar dados mal estruturados para um software mais complexo pode apenas transferir o problema para uma plataforma mais cara e de difícil adaptação. Nesse processo, planilhas continuam sendo usadas como etapa intermediária de organização e modelagem.
Do básico ao avançado: onde está o diferencial
Saber utilizar funções simples não é suficiente para gerar vantagem competitiva.
Recursos como tabelas dinâmicas, fórmulas condicionais, modelagem de cenários e ferramentas como Power Query (que permite limpar e transformar grandes volumes de dados dentro do Excel) ampliam significativamente a capacidade analítica do profissional.
Essa diferença também aparece na remuneração. Dados da plataforma Salary.com indicam que profissionais com perfil de “Excel Analyst” nos Estados Unidos apresentam salários médios anuais superiores a US$ 100 mil quando combinam domínio da ferramenta com competências analíticas mais avançadas.
Fundada em 2015, a Hashtag Treinamentos nasceu oferecendo exclusivamente cursos de Excel e, ao longo dos anos, ampliou seu portfólio para áreas como Power BI, Python, Inteligência Artificial e outras habilidades técnicas e comportamentais. Ainda assim, o Excel permanece entre os principais produtos da empresa, representando aproximadamente 20% da base de alunos em 2025, um indicativo de que a demanda pela ferramenta segue estrutural no mercado.
Embora o Excel isoladamente não determine remuneração, sua associação a funções analíticas mais estratégicas está ligada a cargos de maior responsabilidade e renda superior à média administrativa básica.
“O conhecimento da ferramenta é o mesmo. O que muda é a aplicação”, diz Araújo. “A mesma lógica que organiza um fluxo de caixa pode ser usada para acompanhar metas comerciais, indicadores de RH ou resultados de marketing.”
O debate público frequentemente coloca tecnologias antigas e novas em oposição. No mercado, a dinâmica é diferente. A inteligência artificial acelera tarefas repetitivas e automatiza etapas operacionais. Mas a modelagem, a validação e a interpretação dos dados continuam dependendo do profissional.
“O Excel nunca ficou parado. Ele evoluiu junto com as demandas do mercado e hoje opera integrado a assistentes inteligentes dentro da própria ferramenta”, afirma Araújo.
Quase quatro décadas depois de seu lançamento, o Excel permanece relevante não por nostalgia, mas por funcionalidade. Ele continua sendo uma das linguagens básicas do ambiente corporativo e, ao que tudo indica, seguirá decidindo vagas de emprego por mais algum tempo.