Lula e Ramaphosa buscam unir defesa e diplomacia para proteger Atlântico Sul de ameaças, diz analista
Em meio às tensões mundiais que se acirraram nas últimas semanas, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, foi recebido nesta segunda-feira (9) pelo homólogo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Brasília. Além de debater soluções para os desafios atuais, a agenda reforçou a parceria estratégica entre as potências do Atlântico Sul.
Multilateralismo em pauta, compromisso com uma ordem global mais equilibrada e necessidade de investimentos em defesa diante das ameaças globais em todos os continentes. Na primeira visita de Estado do presidente Cyril Ramaphosa ao Brasil, os líderes dos dois países reafirmaram a importância da cooperação e parceria estratégica, além de assinarem acordos para fortalecer comércio, turismo e investimentos entre as duas potências do Sul Global.
"Só temos um mar, sabe, que [...] na verdade não nos separa, o mar foi feito para nos unir. Quem nos separou, na verdade, foi o comportamento político do ser humano, porque o mar foi feito para aproximação", destacou Lula em pronunciamento após o encontro.
O presidente brasileiro também defendeu a necessidade de Brasil e África do Sul se prepararem militarmente diante do atual cenário.
"Se a gente não se preparar na questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente. Essa é uma coisa que o Brasil tem necessidade similar à necessidade da África do Sul, portanto a gente tem que juntar o nosso potencial e ver o que a gente pode produzir junto, construir junto", pontuou.
Para o professor de relações internacionais sobre África e Oriente Médio na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Anselmo Otávio, a mensagem de Lula não demonstra as intenções do governo de iniciar um amplo processo de militarização do país, mas sim a ideia de que é necessário dissuadir potenciais tentativas de intervenção, como ocorreu com a Venezuela no início do ano.
"Precisamos ter esse poder dissuasório, porque de fato o cenário internacional se torna cada vez mais instável. É inegável [a preocupação] com que se viu na Venezuela e o que acontece hoje no Irã. Então, os países começam a ter essa preocupação, é algo natural. O que é interessante é buscar fortalecer os laços com a África do Sul no âmbito da defesa, já que o país também é uma potência militar regional, com uma indústria de defesa muito relevante. E o Brasil tem interesse também em criar parcerias nesse âmbito", enfatiza à Sputnik Brasil.
Aliado a isso, o especialista cita os desafios em comum dos dois países nessa área: tanto Brasil quanto África do Sul têm objetivos de não permitir que potências extrarregionais atuem militarmente na região do Atlântico Sul. "São duas potências que estão nas duas margens do oceano", lembra.
Multilateralismo como solução para os desafios globais
Conforme o especialista, tanto Brasil quanto África do Sul sempre se colocaram como defensores da diplomacia e do multilateralismo como solução para os desafios "sistêmicos" globais no cenário pós-Guerra Fria, inclusive para as questões locais.
"Ambos trazem consigo essa ideia de buscar iniciativas voltadas à resolução de conflitos, sendo o Brasil na América do Sul e a África do Sul na África Austral. Claro que existem certas especificidades de cada um", acrescenta.
Além disso, Otávio afirma que os dois países são defensores do fortalecimento do sistema da Organização das Nações Unidas (ONU), mas com maior protagonismo aos países do Sul Global, contribuindo para mais estabilidade. "Não se pode esquecer que no discurso do Ramaphosa, o Brasil é destacado como um parceiro estratégico global. Esse status mostra que as relações estão acima de uma simples parceria", diz.
Neste ano, inclusive, a África do Sul vai sediar a cúpula de líderes do G20, que tem como desafio principal a tentativa de esvaziamento do encontro realizada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que já trocou farpas públicas com Ramaphosa após o retorno à Casa Branca. Entre as pautas defendidas pelos dois países em fóruns internacionais como esse, estão a reforma do Conselho de Segurança da ONU e de entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
"Uma outra característica importante, especialmente no caso da África do Sul, é a defesa clara do Consenso de Ezulwini, que surgiu entre 2005 e 2006 no âmbito da própria União Africana. Esse consenso estabelece, como ponto central, a necessidade de garantir representação africana permanente no Conselho de Segurança da ONU. Busca-se, por exemplo, duas cadeiras como membros permanentes, além da ampliação das cadeiras de caráter rotativo. Percebe-se que a África do Sul tem atenção especial a esse espaço e a essa pauta. O Brasil segue a mesma lógica", explica.
Apesar de serem temas desafiadores, conforme o professor de relações internacionais, a tentativa é válida e apenas em espaços de caráter multilateral é possível viabilizar essa mudança.
"Não podemos esquecer que, na crise de 2008, por exemplo, Brasil e África do Sul, junto com outras economias emergentes, pressionaram por mudanças no FMI e no Banco Mundial. Houve avanços, como a ampliação das cotas para países que não eram fundadores dessas instituições. Também é importante lembrar que o Brasil já teve um brasileiro à frente da OMC e que a Nigéria conseguiu eleger uma diretora-geral para a organização, resultado de uma forte articulação do continente africano", exemplifica.
Declínio no comércio com o continente africano
Já na pauta econômica, Otávio cita a redução do fluxo comercial do Brasil com a África na última década: enquanto em 2013 o valor era superior a US$ 30 bilhões (R$ 156 bilhões), em um período de dez anos o montante caiu para US$ 21,2 bilhões (R$ 110 bilhões). O declínio, segundo o especialista, ocorreu por conta de mudanças constantes na política externa para a África no período — após o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), o país passou pelas gestões Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL).
"Esse declínio ocorreu porque basicamente o Brasil perdeu o interesse no continente africano. Então, automaticamente também perde interesse na África do Sul. Se você perde o interesse em uma região que vem cada vez mais se destacando, outros parceiros vão buscar ter uma atuação maior. A sinalização que encontramos hoje é que o Brasil quer retomar essa oportunidade e fortalecer os laços. E do lado da África do Sul, o país quer encontrar uma conjuntura favorável que leve a uma atuação cada vez maior no Brasil", argumenta.
Diante disso, o especialista reforça que há grande espaço para estimular ainda mais o comércio entre os dois países, especialmente de itens industrializados. Inclusive durante o discurso, Lula disse que "não há explicação política para não ter um comércio acima de US$ 10 bilhões (R$ 52 bilhões) com a África do Sul".
"São economias que, dentro do contexto do Sul Global, apresentam certas similaridades. São economias diversificadas, mas que enfrentam o desafio de garantir continuidade nas relações. Esse é o principal desafio que eu enxergo. Ainda assim, há um olhar muito positivo sobre a possibilidade de fortalecer os laços entre os dois lados no âmbito econômico".
Por Sputinik Brasil