GUERRA

Guerra pressiona preço do petróleo e força empresas da Baixada Santista a rever custos e planejamento tributário

Conflitos internacionais e mudanças fiscais ampliam impacto sobre empresas e consumidores e exigem reorganização financeira para enfrentar alta de custos

Por Carolina Lara Publicado em 10/03/2026 às 16:12

A escalada de tensões geopolíticas e os impactos sobre o mercado global de energia já começam a refletir na economia brasileira. Dados da Agência Internacional de Energia indicam que conflitos em regiões produtoras podem elevar o preço do barril de petróleo e pressionar cadeias logísticas, combustíveis e transporte. Esse movimento tende a encarecer produtos e serviços, afetando diretamente o bolso do consumidor e exigindo respostas rápidas das empresas, especialmente em regiões com forte atividade portuária e industrial como a Baixada Santista.

Para Mayra Saitta, advogada especializada em direito empresarial e fundadora do Grupo Saitta, momentos de instabilidade internacional costumam revelar fragilidades na organização financeira das empresas. Segundo ela, a combinação entre aumento de custos globais e mudanças no sistema tributário brasileiro cria um ambiente que exige planejamento mais estratégico. “Quando há aumento do preço do petróleo, toda a cadeia econômica sente o impacto. Transporte, logística e insumos ficam mais caros. Se a empresa não tiver organização fiscal e planejamento de custos, o efeito acaba sendo repassado diretamente ao consumidor”, afirma.

A preocupação se soma a um processo já em curso no país. A reforma tributária do consumo, aprovada pela Emenda Constitucional 132 de 2023, começa a ser implementada em 2026 e substituirá tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por dois novos impostos sobre valor agregado, a CBS e o IBS. O novo modelo deve alterar a forma de cálculo dos tributos e a dinâmica de formação de preços nas empresas.

Segundo levantamento do Banco Mundial, o Brasil está entre os países com maior complexidade tributária do mundo, com empresas gastando cerca de 1.500 horas por ano para cumprir obrigações fiscais. Em períodos de instabilidade econômica global, esse cenário pode ampliar riscos para negócios que não revisam sua estrutura financeira.

De acordo com a especialista, empresas da Baixada Santista que dependem de transporte rodoviário, importação de insumos ou cadeias logísticas mais longas devem sentir os efeitos de forma mais intensa. “A alta do petróleo impacta diretamente fretes e distribuição. Quando isso se soma à mudança na estrutura de impostos, a empresa precisa entender exatamente onde estão seus custos para evitar perda de margem”, explica.

Além do impacto nas empresas, o efeito tende a chegar rapidamente ao consumidor final. Combustíveis mais caros influenciam o preço de alimentos, produtos industrializados e serviços. Para ela, o desafio das empresas será equilibrar custos sem comprometer competitividade. “Nem sempre é possível absorver todos os aumentos. Por isso, organização tributária e revisão de contratos ajudam a reduzir desperdícios e evitar que todo o peso recaia sobre o preço final”, diz.

A especialista aponta que alguns movimentos podem ajudar empresários a lidar com esse período de instabilidade econômica e fiscal.

Entre eles está a análise detalhada da estrutura tributária da empresa, que permite identificar créditos e reduzir custos desnecessários. Outro ponto é revisar contratos com fornecedores e clientes para prever variações de custos logísticos e tributários. A reavaliação da formação de preços também se torna necessária para manter a sustentabilidade financeira do negócio.

Outro cuidado envolve a reorganização de processos internos e sistemas fiscais, que precisarão acompanhar a nova lógica tributária. Empresas que anteciparem essa adaptação tendem a enfrentar menos dificuldades durante a transição da reforma.

Para a advogada, a principal diferença entre empresas que atravessam períodos de crise com estabilidade e aquelas que enfrentam dificuldades está na capacidade de planejamento. “Momentos de tensão internacional mostram que gestão financeira e tributária não podem ser tratadas como burocracia. Elas fazem parte da estratégia de sobrevivência e crescimento das empresas”, afirma.

Ela acrescenta que empresários precisam olhar para o contexto global e local ao mesmo tempo. “Uma guerra do outro lado do mundo pode alterar custos aqui dentro. Empresas que entendem essa conexão conseguem se preparar melhor e reduzir impactos para o negócio e para o consumidor”, conclui.