INTERNACIONAL

Apagamento histórico: os monumentos destruídos em guerras no Oriente Médio

Por Sputinik Brasil Publicado em 10/03/2026 às 18:26
© Sputnik / Grigory Sysoev / Acessar o banco de imagens

A destruição de monumentos históricos apaga séculos de história e aprendizados sobre culturas antigas e contemporâneas. A Sputnik Brasil selecionou alguns exemplos desses monumentos.

Na história, diversos monumentos que retrataram povos antigos e conquistas de outrora conseguiram sobreviver ao tempo e serem preservados até hoje. Porém, outros não tiveram o mesmo destino. Das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, por exemplo, nem todas se mantiveram.

O Farol de Alexandria, no Egito, guiava navios com uma fogueira nos mares do Egito e era uma das estruturas mais altas do mundo até ser destruída por terremotos; o Colosso de Rodes, uma estátua de bronze do deus grego Hélios, erguida para comemorar uma vitória militar, também foi vítima de abalos sísmicos; a Grande Pirâmide de Gizé é a única remanescente das Sete, mas originalmente era coberta por um calcário branco e se acredita que tinha uma ponta de ouro.

Além de desastres naturais, monumentos históricos também são alvos de ações humanas, seja por guerras, vandalismo, negligência na preservação ou projetos de urbanização que acabam levando à sua destruição ou descaracterização ao longo do tempo.

Sucessivas guerras no Oriente Médio, como a invasão ao Iraque e os recentes ataques ao Irã, destroem parte dessa história. A Sputnik Brasil compilou uma lista de monumentos históricos destruídos por conta de conflitos em diferentes países da região.

Palácio de Golestan

Em Teerã, Irã, está o antigo palácio real iraniano do império Cajar, o Palácio de Golestan. Conhecido como o Palácio do Jardim das Rosas, esse monumento é um dos mais antigos complexos históricos da capital e foi a antiga residência oficial dos xás da dinastia Cajar.

Construído a partir do século XVI d.C. e ampliado ao longo do tempo, o palácio reúne pavilhões, jardins e salões ornamentados que combinam elementos da arquitetura persa tradicional com influências europeias. Atualmente, o complexo é considerado Patrimônio Mundial da UNESCO e permanece como um dos principais símbolos históricos e culturais do Irã.

Um dos espaços mais famosos do complexo é o Salão dos Espelhos, utilizado para recepções oficiais e cerimônias reais. Nesse ambiente, milhares de pequenos fragmentos de espelho formam desenhos geométricos nas paredes e no teto, refletindo a luz e ampliando visualmente o espaço. Essa técnica persa, ayeneh-kari, cria jogos de luz quando iluminados por janelas ou lustres.

Infelizmente, o palácio foi danificado durante os primeiros ataques dos EUA e Israel contra o Irã, quando explosões nas proximidades do centro de Teerã provocaram impactos estruturais e estilhaçaram parte das janelas e elementos decorativos. Os danos atingiram especialmente áreas ornamentadas do edifício, onde mosaicos, vitrais e peças de estuque foram afetados pelas ondas de choque.

Mosteiro de Santo Elias

Considerado o mosteiro cristão mais antigo do Iraque, o Mosteiro de Santo Elias foi construído no século VI d.C. próximo a Mossul, Iraque, e fazia parte de uma antiga rede de monastérios cristãos na região histórica da Mesopotâmia. O local serviu como um centro espiritual e ponto de peregrinação para cristãos do norte do Iraque, misturando a fé cristã com tradições siríacas e caldeias.

O mosteiro era relativamente simples, construído com blocos de pedra e tinha capelas, pátios internos e salas de oração. Sobretudo, o lugar reunia milhares de fiéis para celebrações religiosas dedicadas ao profeta bíblico Elias, que se destacou por defender o culto ao deus de Israel em um período marcado pela influência de outras religiões na região.

Mesmo tendo sobrevivido a diferentes impérios e transformações políticas — desde períodos do domínio persa e islâmico medieval até a formação do Iraque moderno — o mosteiro acabou sendo destruído em 2014 durante a ocupação de Mossul pelo pelo grupo extremista Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países).

Análises de imagens de satélite indicaram que o local foi deliberadamente demolido, eliminando um dos marcos mais antigos da presença cristã contínua no país. A destruição do mosteiro foi amplamente vista como uma perda significativa para o patrimônio histórico e religioso da região.

Palmira

No meio do deserto da Síria existia uma das cidades mais fascinantes da Antiguidade: Palmira, um grande centro comercial e cultural que floresceu por volta do século I d.C. A cidade ficava em um oásis estratégico entre o mar Mediterrâneo e a Mesopotâmia, o que a transformou em um ponto crucial das rotas de caravanas que ligavam o mundo romano ao Oriente.

Graças a esse comércio intenso — especialmente de seda, especiarias e pedras preciosas — Palmira acumulou enorme riqueza e desenvolveu uma cultura própria, que misturava influências romanas, persas e semitas. A cidade chegou a ser integrada ao Império Romano, mas manteve certo grau de autonomia e uma identidade cultural bastante singular.

As ruínas da cidade foram reconhecidas como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1980, sendo considerado um dos sítios arqueológicos mais importantes do Oriente Médio. Contudo, a guerra civil síria causou danos enormes a Palmira, destruindo monumentos como o Templo de Bel e o Arco Monumental de Palmira.

Sua destruição representa uma grande tragédia, já que a cidade representava o encontro entre Ocidente e Oriente, uma mistura cultural raramente vista nas civilizações antigas. Mesmo com a destruição, partes importantes das ruínas ainda permanecem e projetos internacionais discutem formas de preservação e possível reconstrução desse patrimônio histórico.

Portão de Mashki

Uma das entradas monumentais da antiga cidade assíria de Nínive, o Portão de Mashki está localizado em Mossul, no Iraque. A cidade atingiu seu auge no século VII a.C., especialmente durante o reinado do rei assírio Senaqueribe, quando Nínive se tornou uma das maiores e mais impressionantes metrópoles do mundo antigo.

O portão fazia parte do sistema de muralhas monumentais que cercava a cidade, uma estrutura defensiva com cerca de 12 quilômetros de extensão e mais de uma dezena de entradas. O nome "Mashki" costuma ser traduzido como "Portão dos Regadores" ou "Portão dos Aguadeiros", possivelmente porque ficava próximo ao rio Tigre e era utilizado por pessoas que transportavam água para a cidade.

Arquitetonicamente, o portão era formado por grandes blocos de pedra e tijolos, com passagens em arco e torres laterais que reforçavam a defesa da muralha. Como outros portões de Nínive, ele também possuía relevos decorativos e elementos escultóricos que refletiam a arte assíria. Essas estruturas eram projetadas não apenas para defesa, mas também para demonstrar o poder e a riqueza do império.

O monumento foi parcialmente reconstruído na década de 1970 como parte de um projeto de preservação arqueológica realizado pelo governo iraquiano. No entanto, em 2016, durante a ocupação da região por militantes do Daesh, o portão foi deliberadamente demolido com explosivos. A destruição foi amplamente condenada por arqueólogos e por organizações internacionais, como a UNESCO, por representar a perda de um importante vestígio da civilização assíria.

Grande Mesquita Omari

Antes dos ataques de Israel em Gaza, a Grande Mesquita Omari – também conhecida como a Grande Mesquita de Gaza – era a maior e mais antiga mesquita da cidade palestina. Seu nome faz referência ao segundo califa do Islã, Omar ibn al-Khattab, associado à expansão islâmica na região no século VII d.C..

O local onde a mesquita foi construída possui uma história ainda mais antiga. Antes da presença islâmica, o espaço teria abrigado um templo pagão da Antiguidade, possivelmente dedicado a divindades filisteias ou romanas. Durante o período bizantino, o edifício foi convertido em uma igreja cristã. Após a conquista islâmica da região no século VII, o local passou por nova transformação e foi adaptado para se tornar uma mesquita.

A Grande Mesquita Omari foi um centro de ensino islâmico onde estudiosos ensinavam teologia, direito e literatura religiosa. Ela passou por muitas restaurações, passando as eras sendo destruída e reconstruída: no século X, o minarete da mesquita ruiu num terremoto; no século XIII, os mamelucos reconstruíram a mesquita, mas foi destruída pelos mongóis; ela foi restaurada no século XVI pelos otomanos, mas novamente danificada por bombardeios britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Ainda assim, foi restaurada em 1925.

Em 2023, foi novamente destruída e reduzida a escombros após ataques de Israel na Faixa de Gaza. A destruição do complexo foi vista por arqueólogos e historiadores como uma perda significativa para o patrimônio cultural da região, já que a mesquita representava séculos de camadas históricas e religiosas sobrepostas no mesmo espaço.