Educação financeira é escudo contra inadimplência e golpes em cenário de juros altos
Com 78% das famílias endividadas e o avanço de fraudes digitais sofisticadas em 2026, a falta de planejamento estruturado se torna o principal risco ao patrimônio dos brasileiros
A educação financeira ainda é um privilégio que distancia grande parte da população brasileira de uma vida financeira mais equilibrada. Dados do Observatório Febraban revelam que 55% dos brasileiros admitem entender pouco ou nada sobre o tema, um gap que se reflete diretamente nos índices de inadimplência no país. Hoje, o Brasil já soma mais de 73 milhões de pessoas negativadas, segundo levantamento do Serasa.
O cenário também se reflete no perfil de endividamento das famílias. De acordo com pesquisas recentes, 78% dos lares brasileiros possuem algum tipo de dívida, enquanto cerca de 30% enfrentam dificuldades para pagar as contas no curto prazo, o que evidencia o impacto direto da falta de planejamento financeiro no cotidiano.
Para André Bobek, fundador da Mhydas Planejamento Financeiro e consultor eleito o 11º melhor do mundo pelo MDRT (Million Dollar Round Table), o cenário econômico atual exige uma postura mais estratégica em relação ao dinheiro. Em 2026, com a taxa Selic orbitando 15% ao ano, decisões equivocadas sobre crédito ou a ausência de uma reserva de emergência podem gerar custos financeiros relevantes.
“Educação financeira não é sobre dominar conceitos complexos do mercado, mas sobre ter método para organizar receitas, evitar dívidas desnecessárias e planejar decisões com consciência. Em um país onde cerca de 60% das pessoas não conseguem poupar, o planejamento é o que separa o sobrevivente do investidor”, afirma Bobek.
Além do descontrole orçamentário, a falta de conhecimento financeiro também aumenta a vulnerabilidade da população a fraudes, que se tornaram cada vez mais sofisticadas no ambiente digital. O Brasil vive atualmente uma epidemia de golpes financeiros. Um estudo realizado pelo Datafolha, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que mais de 4.600 tentativas de fraudes financeiras acontecem a cada hora no país, o que representa milhões de vítimas todos os anos.
Em 2024, cerca de 56 milhões de brasileiros foram alvo de algum tipo de golpe financeiro, segundo o levantamento. Entre as fraudes mais comuns estão clonagem de cartão (40%), falsos conhecidos no WhatsApp (28%), falsas centrais telefônicas (26%) e golpes envolvendo transferências via Pix, que juntos causam prejuízos bilionários e atingem tanto jovens quanto adultos.
Segundo Bobek, muitas dessas fraudes se apoiam justamente na falta de referência das pessoas sobre como funcionam produtos financeiros, investimentos e operações bancárias.
“Entender conceitos básicos de investimento e risco é uma das formas mais eficazes de proteção. Quando alguém promete ganhos muito acima do mercado ou exige decisões imediatas, esse já é um sinal de alerta para qualquer pessoa que tenha educação financeira”, explica
Quando pagar à vista pode não ser a melhor escolha
Outro ponto que exige atenção em 2026 é a decisão entre pagar à vista ou parcelar determinadas despesas. Com juros elevados, o especialista explica que nem sempre o pagamento imediato representa a melhor estratégia.
Segundo Bobek, em um cenário de juros próximos de 15% ao ano, o pagamento à vista só compensa quando o desconto oferecido supera esse patamar. “Em muitos casos, especialmente em compras maiores ou pagamento de impostos, o consumidor precisa comparar o desconto oferecido com o rendimento que aquele dinheiro poderia gerar se permanecesse investido. Nem sempre antecipar o pagamento significa economia real”, afirma.
Para o especialista, ampliar o acesso à educação financeira é fundamental para que mais brasileiros consigam tomar decisões com base em informação, e não apenas na urgência ou no improviso.
“Educação financeira é, antes de tudo, uma ferramenta de autonomia. Quanto mais as pessoas entendem como o dinheiro funciona, mais preparadas elas ficam para lidar com oportunidades, crises e decisões importantes ao longo da vida”, conclui o fundador da Mhydas.