RECONHECIMENTO INTERNACIONAL

Cientista brasileiro recebe prêmio internacional por pesquisa sobre Alzheimer

Wagner Scheeren Brum, de 28 anos, é destaque por estudo que propõe exame de sangue para diagnóstico precoce da doença

Publicado em 11/03/2026 às 10:30
Wagner Scheeren Reprodução / Instagram

O médico e pesquisador brasileiro Wagner Scheeren Brum, de 28 anos, foi reconhecido internacionalmente por seu estudo inovador sobre o uso de exames de sangue para diagnosticar a doença de Alzheimer.

O prêmio AAIC Neuroscience Next "One to Watch" Award 2026, concedido pela Alzheimer's Association, é destinado a jovens cientistas promissores na área de neurociência.

Atualmente doutorando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brum integra o Zimmer Lab, laboratório voltado ao estudo de doenças neurodegenerativas. Ele é o quarto integrante do grupo a receber a honraria, que conta com apoio do Instituto Serrapilheira, IDOR Ciência Pioneira, Ministério da Saúde e Capes.

"Na medicina, a maior parte do conhecimento é produzida na América do Norte e na Europa. Fazer parte do movimento de pesquisadores brasileiros que estão mudando paradigmas internacionais é algo que muito me orgulha", afirma Brum.

Limitações para diagnosticar Alzheimer

A pesquisa do médico concentra-se na proteína p-tau217, um biomarcador capaz de indicar alterações cerebrais associadas ao Alzheimer.

Brum explica que, atualmente, o diagnóstico da doença depende principalmente da avaliação clínica, processo essencial, porém limitado.

"Não há um exame de uso disseminado no Brasil que avalie se pacientes diagnosticados clinicamente com Alzheimer possuem uma assinatura molecular característica no cérebro", exemplifica.

Entre os principais desafios estão a escassez de profissionais especializados em avaliação cognitiva e o difícil acesso a exames de imagem, como a ressonância magnética.

Além disso, testes mais avançados, como tomografia por emissão de pósitrons (PET) ou análise do líquor, são caros ou invasivos.

Nesse cenário, exames de sangue se apresentam como alternativa promissora, já que pesquisas indicam que níveis alterados de determinadas proteínas no sangue estão relacionados às mudanças cerebrais típicas do Alzheimer.

"Ter um exame de sangue capaz de detectar essas alterações é fundamental, tanto para descartar quanto para confirmar casos, especialmente diante de novas terapias promissoras que só podem ser aplicadas a pacientes com essa assinatura molecular comprovada", destaca o pesquisador.

Modelo para interpretar resultados

Brum desenvolve um modelo de interpretação do teste que mede a presença da proteína p-tau217 no sangue. O chamado "modelo de dois passos" auxilia a definir quais pacientes necessitam de exames complementares.

Segundo ele, níveis muito baixos ou muito altos do biomarcador podem indicar, respectivamente, ausência ou presença de alterações cerebrais típicas do Alzheimer. Casos intermediários exigem exames adicionais.

"Essa abordagem já é utilizada na prática clínica e foi base para a aprovação do uso clínico desse exame de sangue pela Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos", explica Brum.

Desafios

Atualmente, o exame baseado na p-tau217 está em fase de implementação em diversos países.

O principal desafio é adaptar o teste aos equipamentos disponíveis nos hospitais, assegurando resultados consistentes entre diferentes laboratórios.

Outro obstáculo é ampliar a validação científica do método em populações fora da Europa e América do Norte, onde a maioria dos estudos foi realizada. "Um dos desafios é demonstrar que o exame também funciona em pacientes com Alzheimer no Sul Global", ressalta Brum.

O próximo passo é incorporar a tecnologia à rotina clínica de centros especializados e capacitar médicos que atendem pacientes com demência, como neurologistas e geriatras.