Pragmatismo Brasil-Chile supera diferenças ideológicas e intensifica parcerias comerciais (Parte 1)
Apesar de divergências políticas, Brasil e Chile fortalecem relações com acordos inovadores e avanços em comércio e infraestrutura.
Brasil e Chile não compartilham fronteira direta, mas sua interação comercial e turística nos últimos anos demonstra que a distância não é obstáculo quando há interesses estratégicos em jogo. Atualmente, o comércio bilateral movimenta mais de US$ 13 bilhões (R$ 67,55 bilhões) por ano, com potencial de expansão em diversos setores.
Mesmo com ideologias políticas bastante distintas, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e José Antonio Kast, empossado nesta quarta-feira (11), vêm adotando uma postura pragmática, priorizando a diplomacia de resultados.
Acordo de Livre Comércio (ALC)
Assinado em 2018 e em vigor desde 25 de janeiro de 2022, o Acordo de Livre Comércio (ALC) entre Brasil e Chile complementa a liberalização já promovida pelo Acordo de Complementação Econômica entre o Mercosul e o Chile (ACE nº 35). O tratado ampliou o intercâmbio comercial de bens e serviços, eliminando tarifas de importação sobre quase 100% dos produtos comercializados.
Além disso, foi o primeiro acordo brasileiro a incluir capítulos sobre comércio eletrônico e a eliminação de taxas de roaming internacional. Um dos avanços mais significativos permite que empresas brasileiras participem de licitações do governo chileno em igualdade de condições com as companhias locais, e vice-versa.
Corredor bioceânico
O projeto de infraestrutura, com 2,5 mil quilômetros de extensão, visa ligar o sul do Brasil, a partir do porto de Santos (Atlântico), aos portos do norte do Chile (Pacífico), passando por Paraguai e Argentina. Segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, o corredor poderá reduzir em até 14 dias o tempo de transporte de mercadorias brasileiras para a Ásia, evitando o canal do Panamá, e dobrar a corrente de comércio entre os países.
A ponte principal sobre o rio Paraguai tem entrega prevista para agosto deste ano, e o corredor rodoviário, que conecta Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, deve ser ativado em 2027, conforme a divisão de integração de infraestrutura do Itamaraty.
Importações e exportações estratégicas
O petróleo bruto brasileiro é vital para a segurança energética do Chile, representando cerca de 25% a 30% do total exportado pelo Brasil ao país andino. No setor industrial, o Chile figura entre os cinco maiores mercados para veículos de passageiros produzidos no Brasil.
Entre 2025 e início de 2026, houve aumento significativo nas vendas de milho e algodão bruto brasileiro para o mercado chileno, diversificando a pauta agrícola. Por sua vez, o Chile, maior produtor mundial de cobre, abastece a indústria elétrica e de construção brasileira. Além disso, o Brasil é o principal destino do salmão chileno na América Latina: quase 90% do salmão consumido pelos brasileiros tem origem chilena. O vinho chileno também se destaca, ocupando mais de 40% do mercado de vinhos importados no Brasil.