ALIMENTOS

Pesquisadora defende políticas públicas para garantir alimentação saudável

Leiko Asakura ressaltou a importância da resolução sobre venda de produtos nas cantinas escolares de Alagoas; Atlas Mundial da Obesidade 2026 alerta para o aumento do número de crianças em idade escolar com IMC elevado ou obesidade

Publicado em 12/03/2026 às 09:35
Leiko Asakura: "o ideal é que sejam oferecidos, tanto em casa quanto no ambiente escolar, alimentos in natura e minimamente processados, e que sejam proibidos produtos ultraprocessados"

Salgadinhos com excesso de sal e gordura. Refrigerantes, doces em formatos divertidos e com cores chamativas, mas repletos de açúcar, corantes artificiais e uma “lista de ingredientes” cheia de siglas que mal se consegue pronunciar. Gêneros alimentícios ultraprocessados que devem ser evitados, mas que acabam sendo a rotina diária no lanche de crianças e jovens no ambiente escolar.

“Os impactos dos produtos ultraprocessados na saúde de crianças e jovens são negativos, pois há estudos que já mostram associação entre o consumo de refrigerantes e obesidade. Ainda, o consumo de outros produtos ricos em sal e gordura, como salgadinhos de pacote, macarrão instantâneo e fast food, está associado ao desenvolvimento de hipertensão e diabetes tipo 2”, informa a docente e pesquisadora Leiko Asakura, da Faculdade de Nutrição (Fanut) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

No início deste ano, o Conselho Estadual de Alimentação Escolar de Alagoas (Ceae/AL) publicou uma resolução sobre a oferta de alimentação nas cantinas escolares do estado, priorizando a oferta de frutas, sucos e iogurtes naturais e sem açúcar, além de proibir a venda de refrigerantes, bebidas artificiais e de ultraprocessados com excesso de sódio, gordura saturada ou gordura trans. Para saber mais, clique aqui.

Com experiência na área de segurança alimentar e nutricional, Leiko defendeu a importância da resolução. “Depois da publicação, entrei em contato com o presidente do Ceae para cumprimentá-lo pela iniciativa e informei que há um projeto de lei tramitando na Assembleia Legislativa de Alagoas sobre o mesmo tema, mas ainda não foi votado”, afirmou. 

Para demonstrar a necessidade da medida, a docente da Ufal cita alguns dados sobre obesidade entre crianças e adolescentes em Alagoas. “Segundo dados do terceiro quadrimestre de 2024 do Boletim informativo da Vigilância Alimentar e Nutricional, da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas, das crianças de 0 a 2 anos, atendidas na atenção primária à saúde, 11,83% tinham sobrepeso e 7,22% tinham obesidade; já em crianças de 2 a 5 anos: 8,09% tinham sobrepeso e 7,5% tinham obesidade”, detalhou.

Os dados são locais, mas refletem uma tendência nacional: cada vez mais cedo, crianças apresentando condições clínicas que, geralmente, eram comuns em pessoas com mais idade. Pesquisadores da área da saúde e da educação há muito defendem a participação da comunidade escolar na promoção de hábitos alimentares saudáveis.

A situação é de alerta, tanto que o Atlas Mundial da Obesidade 2026 traz a obesidade infantil como foco e adverte que a doença “está aumentando a uma taxa sem precedentes”. Ainda de acordo com o Atlas, o Brasil figura na lista dos dez países com o maior número de crianças em idade escolar (de 5 a 19 anos) com índice de massa corporal (IMC) elevado ou obesidade. Para conferir o documento, acesse aqui.

Garantir uma alimentação saudável

Para a docente Leiko, o ideal é que sejam oferecidos, tanto em casa quanto no ambiente escolar, alimentos in natura (frutas e suco de frutas naturais) e minimamente processados (leite longa vida, iogurte natural sem açúcar), e que sejam proibidos produtos ultraprocessados, tais como refrigerantes, suco de caixinha, salgadinho de pacote, biscoito recheado, iogurte com açúcar e corantes.

Diante do desafio que será cumprir a resolução, tendo em vista a disseminação e a normalização do consumo desses gêneros alimentícios, a docente ressalta a realização de políticas públicas sobre o tema, o engajamento da comunidade escolar e a participação da família.

“A garantia de uma alimentação saudável no ambiente familiar, no trabalho e no ambiente escolar deve ser uma prioridade de todo e qualquer país que se pretende ser um país que promove e protege a saúde de sua população”, afirmou.

E destacou: “É importante que o ambiente familiar seja o primeiro meio de contato com os alimentos, e a família precisa ter condições, ou seja, conhecimento, acesso e recursos financeiros para fazer as melhores escolhas alimentares. Considerando que a escola é o local onde as crianças e adolescentes passam grande parte do tempo, é esse ambiente que tem potencial de ajudar a construir novos e melhores hábitos alimentares”. 

Programa Nacional de Alimentação Escolar como referência

As escolas públicas tendem a sentir menos as mudanças propostas pela resolução, considerando a existência do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), uma política pública de segurança alimentar e nutricional do Brasil que garante a estudantes da rede pública de ensino acesso a uma alimentação balanceada.

Desde 2022, municípios alagoanos contam com o apoio técnico do Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição Escolar (Cecane), vinculado à Faculdade de Nutrição (Fanut) da Ufal, que promove ações formativas e de acompanhamento das ações do Pnae. O Centro atua como unidade de referência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Hoje, a equipe executora é composta pelas professoras Bruna Merten, Gabriela Rossiter, Leiko Asakura e Thaysa Brandão.

Leiko detalha que o Cecane promove a formação técnica de conselheiros da alimentação escolar e de nutricionistas que trabalham no referido programa. Realiza também assessoria e monitoramento local, no caso de municípios com mais dificuldades em cumprir as normativas do Pnae, além de articular agricultores familiares para participarem das chamadas públicas e venderem seus produtos ao programa.

“O Pnae é uma política pública de grande importância para toda a comunidade escolar e toda a sociedade, pois garante uma alimentação saudável e equilibrada a todos os estudantes, da creche ao ensino de jovens e adultos, fortalece a economia local e estimula a agricultura familiar, envolve a família e toda a sociedade de cada município”, destacou. 

Para saber mais sobre o trabalho do Cecane Ufal, acesse o site e acompanhe o Instagram @cecaneufal.

Para saber mais sobre outra iniciativa da Ufal na área de alimentação saudável na escola, conheça a startup Semeando Educação Nutricional (SEN) clicando aqui.