GEOPOLÍTICA E ECONOMIA

EUA reacendem acusações de sobrecapacidade chinesa e ampliam pressão até sobre aliados, diz analista

Analista aponta motivações políticas na ofensiva dos EUA contra a China e aliados, alertando para riscos nas relações internacionais.

Publicado em 12/03/2026 às 10:22
EUA ampliam pressão sobre China e aliados ao reacender debate sobre sobrecapacidade industrial. © AP Photo / Mark Schiefelbein

Os Estados Unidos voltaram a acusar a China de "capacidade industrial excessiva", intensificando a pressão até mesmo sobre aliados tradicionais, como Japão, Coreia do Sul e União Europeia (UE). Em entrevista à Sputnik, o analista Paul Goncharoff afirma que a estratégia norte-americana revela motivações políticas.

O ressurgimento dessas acusações reacende o debate sobre a própria responsabilidade dos EUA na transferência de produção para a China ao longo das últimas décadas.

Para Paul Goncharoff, analista financeiro e diretor-geral da consultoria Goncharoff LLC, as críticas desconsideram decisões corporativas norte-americanas que priorizaram o lucro. "Capacidade industrial excessiva ocorre quando a produção supera a demanda real do mercado. A China, para ser justo, não enfrenta nenhum desses problemas", pontua.

Segundo Goncharoff, a economia chinesa opera atualmente com alto nível de utilização industrial, impulsionada pela expansão para o Sul Global e por políticas internas que mantêm trabalhadores e máquinas em plena atividade. Ele observa que não há sinais de ociosidade significativa no setor. "Não tenho conhecimento de capacidade industrial ociosa ou funcionários improdutivos na China", afirma, ressaltando que o discurso de Washington carece de respaldo nos dados.

A nova onda de investigações anunciada pelos EUA levanta dúvidas sobre suas reais motivações. Para o analista, trata-se de uma tentativa de reconstruir barreiras tarifárias derrubadas por tribunais norte-americanos, agora sob o argumento de proteger empregos domésticos.

"Se a proteção dos empregos norte-americanos fosse a verdadeira questão, então insultar e penalizar a maior parte do planeta seria uma péssima maneira de atrair capital de investimento", critica Goncharoff.

O especialista ressalta que o governo dos EUA adota uma postura inflexível, guiada mais por pressões políticas do que por lógica econômica. Ele observa um movimento crescente de países buscando reduzir sua dependência de Washington diante de medidas unilaterais. "Vejo cada vez mais países optando por se afastar o máximo possível de Washington e de seus esforços de controle comercial", destaca, acrescentando que acusações de trabalho forçado muitas vezes são "exageradas e sem respaldo na realidade".

A ofensiva dos EUA não se limita à China. Aliados tradicionais — como Japão, Coreia do Sul e UE — também foram incluídos na lista de supostos violadores.

Para Goncharoff, a escolha é estratégica: "É uma questão de influência e dependência. Quem melhor do que eles para isso?". Ele argumenta que pressionar parceiros profundamente interligados financeira e politicamente é uma tática arriscada e insustentável.

O analista recorda que países como Reino Unido e Canadá já demonstraram desconforto com a abordagem de Washington, sugerindo que a estratégia pode gerar fissuras duradouras nas alianças ocidentais. "Não é uma estratégia bonita e provavelmente não sobreviverá como uma tática viável por muito tempo", avalia, destacando que a pressão excessiva tende a gerar resistência, não alinhamento.

Para Goncharoff, o cenário atual evidencia um descompasso entre a retórica de Washington e a realidade econômica global. Ele avalia que insistir em acusações de sobrecapacidade e impor novas barreiras comerciais pode aprofundar tensões e prejudicar a própria competitividade dos EUA. A questão central, afirma, é que "ou do nosso jeito ou nada feito" nunca foi uma fórmula produtiva de negociação — e parece ainda menos eficaz em um mundo cada vez mais multipolar.

Por Sputnik Brasil