Soft power cultural: do francês ao inglês, como as potências usam o idioma para impor sua hegemonia?
Declaração de Trump reacende debate sobre o uso do idioma como instrumento de dominação e diplomacia cultural no cenário internacional.
Durante um encontro com líderes latino-americanos de direita, na última semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou o espanhol de "língua maldita", alegando que não teria tempo para aprendê-lo. A declaração reacendeu o debate sobre como, desde o pós-guerra, os Estados Unidos utilizam o inglês como ferramenta de dominação global.
De acordo com o internacionalista Pablo Vitor Fontes Santos, a consolidação do inglês como idioma dominante está diretamente ligada ao papel assumido pelos Estados Unidos no pós-guerra. Com a reorganização da ordem internacional e o início da Guerra Fria, Washington passou a investir fortemente na chamada diplomacia cultural, utilizando a linguagem como instrumento de projeção mundial.
“Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos fizeram um investimento muito grande na diplomacia cultural, aquilo que alguns chamam de soft power, o poder brando. Nesse contexto, a língua inglesa passa a funcionar como instrumento de difusão de valores culturais, sociais e políticos associados à sociedade norte-americana”, explica Santos.
O professor Xoán Carlos Lagares também abordou, em entrevista ao podcast internacional da Sputnik Brasil, o conceito de glotofobia, termo que designa a discriminação linguística — como exemplificado pelas declarações de Trump sobre o espanhol.
“Glotofobia é um termo cunhado por um sociolinguista francês, na verdade um falante do provençal, Philippe Blanchet. Trata-se de um termo composto: 'gloto', que significa 'língua' em grego; e 'fobia', que significa 'ódio'. Na prática, refere-se a todo tipo de preconceito linguístico”, enfatiza Lagares.
Antes da consolidação do inglês como idioma dominante, o francês ocupava posição central na diplomacia e na cultura internacional. Durante grande parte do século XX, falar francês era associado a prestígio intelectual e social, inclusive em países como o Brasil.
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