ECONOMIA GLOBAL

FGV aponta que incertezas no comércio mundial podem afetar negociações entre Brasil e EUA

Relatório do Icomex destaca impactos das decisões dos EUA e conflitos no Oriente Médio sobre o comércio exterior brasileiro.

Publicado em 13/03/2026 às 09:42
FGV aponta que incertezas no comércio mundial podem afetar negociações entre Brasil e EUA Reprodução

O primeiro bimestre de 2026 encerrou-se sob um cenário de aumento das incertezas para o comércio exterior, com efeitos diretos das decisões do governo dos Estados Unidos e da intensificação das tensões no Oriente Médio. Esses fatores podem influenciar as negociações entre Brasil e Estados Unidos, segundo análise do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), divulgado nesta sexta-feira (13) pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

"O primeiro bimestre de 2026 encerra com mais incertezas quanto aos rumos do comércio exterior. O cenário para as negociações entre os Estados Unidos e o Brasil, que deveriam ocorrer no mês de março, ajudaria o Brasil. Um cenário é iniciar negociações com tarifas de 50% incidentes sobre cerca de 22% da pauta de exportações e outro com tarifas de 15%", avalia a FGV.

No âmbito comercial, a Suprema Corte americana derrubou a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), que havia sido utilizada para justificar o tarifaço de 20 de fevereiro. Essa decisão poderia livrar o Brasil das tarifas ainda em vigor, de até 50%. Entretanto, o presidente norte-americano, Donald Trump, acionou a Seção 122 do Código de Comércio, que permite a aplicação de tarifas de até 15% por 150 dias, alterando o ponto de partida das negociações previstas para março entre os dois países.

No contexto geopolítico, o ataque dos Estados Unidos, em conjunto com Israel, ao Irã elevou a imprevisibilidade global. A duração e a extensão do conflito tendem a definir o tamanho do impacto, especialmente por meio da alta do petróleo, encarecimento do transporte e da logística, além de pressões inflacionárias, com risco de adiar cortes de juros e reduzir o ritmo do comércio mundial.

Para o Brasil, a elevação do preço do petróleo pode representar ganhos, mas o país importa óleo diesel, que também tende a ficar mais caro. O Oriente Médio respondeu por 4,6% das exportações brasileiras em 2025, com peso relevante para alguns itens, e por 2,6% das importações, incluindo insumos de fertilizantes como ureia, sendo 14,8% provenientes de Omã, o que expõe a balança comercial a choques externos.

Apesar do ambiente externo adverso, a balança comercial brasileira apresentou melhora no bimestre: o saldo de 2026 somou US$ 8,0 bilhões, ante US$ 1,9 bilhão em 2025. Em fevereiro, as exportações cresceram 15,6% e as importações caíram 4,8%, com destaque para a China, que impulsionou o aumento das exportações e das importações de automóveis, concentradas principalmente naquele país, em um cenário de volatilidade cambial.

As importações de automóveis de passageiros provenientes da China cresceram 68,4% entre os dois primeiros bimestres do ano, segundo a FGV.

A FGV também destacou que a taxa de câmbio efetiva real teve uma valorização de 2,9% na comparação entre os dois primeiros bimestres de 2025 e 2026.

"As turbulências da política de Trump levaram a um aumento na entrada de capital em mercados emergentes, especialmente com taxas de juros elevadas. O conflito no Oriente Médio causou uma desvalorização no início de março, que depois recuou. A volatilidade cambial deverá ser a marca desses tempos de conflitos, quando predominam as incertezas quanto aos rumos desse quadro", conclui o relatório.