DESCOBERTA

Estrela primordial em galáxia anã revela pistas inéditas sobre as primeiras gerações do Universo

Publicado em 19/03/2026 às 11:36
© Foto / CTIO/NOIRLab/DOE/NSF/AURAImage processing: Image Processing: T.A. Rector (University of Alaska Anchorage/NSF NOIRLab), M. Zamani & D. de Martin (NSF NOIRLab)Acknowledgment: PI: Anirudh Chiti, Alex Drlica-Wagner)

A descoberta da estrela PicII‑503, extremamente pobre em ferro e rica em carbono, oferece uma das evidências mais claras já observadas sobre as primeiras gerações estelares. Localizada na galáxia anã Pictor II, ela funciona como um raro "fóssil cósmico", preservando a química deixada pelas estrelas primordiais.

Os cientistas identificaram uma estrela raríssima de segunda geração, tratada como um verdadeiro "fóssil estelar" para preservar marcas químicas deixadas pelas primeiras estrelas do Universo.

Localizada na galáxia anã Pictor II, a estrela PicII‑503 possui apenas 1/40.000 do ferro encontrado no Sol, tornando‑se o objeto extragaláctico com menor teoria de ferro já apresentada. A descoberta foi feita com a Câmera de Energia Escura (DECam), instalada no telescópio Víctor M. Blanco.

Além da extrema pobreza em ferro, o PicII‑503 apresenta uma superabundância de carbono — mais de 1.500 vezes a proporção carbono/ferro do Sol. Essa assinatura química incomum é semelhante à vista em estrelas muito antigas do halo externo da Via Láctea e reforça sua natureza primordial.

Para os investigadores, trata‑se de um registo direto da forma como as primeiras estrelas, as chamadas POP III, enriqueceram o cosmos ao explodirem como supernovas.

As estrelas POP III surgiram quando o Universo era composto quase exclusivamente de hidrogênio e hélio. Ao morrerem, produziram e espalharam os primeiros elementos pesados, permitindo que nuvens de gás enriquecidas colapsassem e formassem as estrelas POP II, como PicII‑503. Por isso, essas estrelas funcionam como cápsulas do tempo, preservando etapas cruciais da evolução química cósmica.

A equipe liderada por Anirudh Chiti, da Universidade de Stanford, destaca que encontrar uma estrela que registre de forma tão clara os metais das primeiras gerações estelares era considerada quase impossível, dada a raridade desses objetos.

The Very Large Telescope, ou o Telescópio VLT, no Observatório do Paranal no deserto do Atacama, no Chile. A instrumentação do VLT foi adaptada para conduzir uma busca por planetas no sistema Alpha Centauri. Esta imagem do VLT é pintada com as cores do pôr do sol refletidas na água da plataforma
The Very Large Telescope, ou o Telescópio VLT, no Observatório do Paranal no deserto do Atacama, no Chile. A instrumentação do VLT foi adaptada para conduzir uma busca por planetas no sistema Alpha Centauri. Esta imagem do VLT é pintada com as cores do pôr do sol refletidas na água da plataforma

Combinando dados do MAGIC com observações do Telescópio Muito Grande e do Telescópio Magellan, os cientistas confirmaram que o PicII‑503 possui as menores abundâncias de ferro e cálcio já medidas fora da Via Láctea. Isso faz dela o primeiro registro inequívoco de enriquecimento químico em uma galáxia anã de brilho ultrabaixo, oferecendo uma janela inédita para os processos que moldaram o Universo primordial.

Uma explicação para a razão extrema entre carbono e ferro é que as supernovas POP III explodiram com baixa energia. Nesse cenário, elementos leves como carbono seriam lançados ao espaço, enquanto elementos pesados, como ferro, cairiam de volta aos destroços da explosão. O fato do Pictor II ser uma das menores das galáxias conhecidas reforça essa hipótese, já que sua baixa gravidade favoreceria esse tipo de evento.

Para os pesquisadores, observar o PicII‑503 é como testemunhar diretamente a química das primeiras estrelas.


Por Sputinik Brasil