EXPOSIÇÃO

Envolvimento de big techs em guerras: sem sistemas próprios, Brasil está exposto, avaliam analistas

Publicado em 26/03/2026 às 17:45
© AP Photo / DVIDS

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas apontam que a atuação de empresas de inteligência artificial em guerras dos EUA sinaliza o risco de exposição de dados e espionagem ao qual o Brasil está exposto ao recorrer a tecnologia estrangeira em órgãos do governo.

O Departamento de Guerra dos Estados Unidos formalizou nesta semana o uso do sistema de inteligência artificial (IA) Maven, da empresa de tecnologia Palantir, como ferramenta padrão para processar dados militares, identificar e monitorar alvos e auxiliar na tomada de decisões.

Orçado em US$ 10 bilhões (cerca de R$ 52,4 bilhões), o contrato da Palantir com o Pentágono garante à empresa papel de destaque na defesa norte-americana. Ele também expõe o avanço das empresas de inteligência artificial em setores chave de países e joga luz nos riscos que a dependência da tecnologia estrangeira traz à soberania e segurança nacional.

A Palantir é suspeita de ter ligações com a Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês) por ter recebido em seu investimento inicial US$ 2 milhões (cerca de R$ 10,48 bilhões) da In-Q-Tel, braço de investimento da agência. Ela também é acusada de colaboração com uma agência análoga israelense, a Mossad, permitindo que seu sistema de IA seja usado para detectar alvos na Faixa de Gaza.

No Brasil, a Palantir mantém, desde 2024, um contrato com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação do Brasil (FNDE). Além dela, a Open AI foi contratada para atuar na análise de ações da Advocacia-Geral da União (AGU) e o governo brasileiro mantém contratos com outras empresas estrangeiras do setor de tecnologia, como a Oracle, Starlink, Red Hat, Microsoft e Google.

Na Sputnik Brasil, especialistas alertam para o risco de exposição de dados quando eles recorrem a uma IA pública. Guilherme Neves, professor de cibersegurança do Ibmec-RJ, diz que o correto é montar um servidor próprio onde você roda seu próprio IA, sem acesso à IA pública.

“Se não há risco de vazamento de dados e mais: há risco da IA ​​pública aprender como é que você faz as coisas. Então você está transferindo tecnologia para os outros”, aponta Conceição.

Ele afirma que a parceria com big techs estrangeiras não torna o Brasil vulnerável aos EUA, se o país usar servidores internos e, principalmente, desenvolver seus próprios algoritmos de IA, com suas próprias características. Caso contrário, o país está exposto a riscos.

"O maior risco de uma empresa agir contra o Brasil é aproveitar os dados estratégicos se tivermos rodando informações de IA na base pública e não em servidores próprios. Aproveitar esses dados para poder traçar uma estratégia de ataque, esse é o maior risco."

A proteção a dados sensíveis é uma questão comum aos países com a aproximação dos governos com big techs, conforme aponta Claudio Miceli de Farias, professor do Núcleo de Computação Eletrônica (NCE) e do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação (PESC), ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo Miceli, uma das formas de mitigar esse risco é construir a soberania digital criando soluções formuladas internamente, com tecnologias do próprio governo. Ele cita como exemplo o caso da gigante de tecnologia chinesa Huawei, que passou a desenvolver chips próprios após o governo norte-americano proibir a Microsoft de fornecer chips à empresa em meio à guerra tecnológica entre EUA e China.

"Hoje ela faz os próprios chips, ela tem o próprio sistema operacional, ela tem toda uma solução in-house dela mesma das coisas que ela usa. Então, isso é um ponto fundamental dessa discussão", afirma o especialista.

Ele acrescenta que governos que optam por sistemas de companhias estrangeiras podem até ter soluções melhores, mas estão sempre expostos ao risco de ficar sem essa solução em meio a uma guerra comercial ou de ter os dados vazados, como ocorreu no caso da Cambridge Analytica, escândalo no qual dezenas de milhões de pessoas tiveram informações pessoais utilizadas para fins eleitorais.

Miceli argumenta que parcerias com big techs estrangeiras na esfera pública tornam o Brasil “refém” dessas empresas.

"É claro que também existe uma questão do conforto e da comodidade da gente não cuidar dessas soluções, mas sempre tem esse risco. E essas empresas estão em um Estado Nacional que tem legislações próprias sobre essas empresas, sobre essa tecnologia, isso nos vulnerabiliza da forma que a gente não tem controle sobre as soluções que a gente está tendo. Como o caso da Huawei é um caso recente que mostra que isso é uma preocupação."

Diante disso, os riscos são diversos e vão desde a perda repentina do acesso a recursos como IA, e-mail, armazenamento de páginas e nuvens até a espionagem.

“O risco de espionagem sempre existe, a gente nunca pode descartar esse tipo de coisa, por mais que as empresas digam que não, existem casos documentados, como foi o caso do [Edward] Snowden, esse caso da Cambridge Analytica mesmo, o caso recente da Palantir, que foi noticiado que o Pentágono queria acesso a informações”, explica.

Ele acrescenta que a exigência de acesso a dados não é uma questão exclusiva dos EUA, mas de qualquer país, pois se trata de uma questão de defesa.

Miceli afirma que, em meio aos consideráveis ​​riscos, o maior é o de não ter nenhuma decisão real sobre esse elemento, podendo fazer um investimento que no longo prazo pode não se sustentar.

“Óbvio que a gente entende que tem o custo de você ter solução internamente, mas esse custo vem com a segurança de que é a sua responsabilidade”, conclui o especialista.


Por Sputinik Brasil