Reinado negro em Chã Preta: obra de Olegário Venceslau resgata a força do Mocambo de Osenga
A história da resistência negra em Alagoas ganha novos contornos com a publicação da obra “Mocambo de Osenga: Um reinado africano em Chã Preta no século XVII”, assinada pelo escritor, advogado e folclorista alagoano Olegário Venceslau. O livro traz à tona um dos capítulos mais relevantes — e ainda pouco explorados — da formação histórica do Estado, ao revelar a existência de um mocambo altamente estruturado no interior da Zona da Mata.
Resultado de uma pesquisa extensa e fundamentada, a obra reconstrói a trajetória de um reduto quilombola vinculado à dinâmica territorial da República dos Palmares. Longe da visão simplista de agrupamentos desorganizados de escravizados fugidos, o Mocambo de Osenga é apresentado como uma sociedade complexa, com organização política, sistema de defesa e práticas culturais próprias.
Segundo o autor, o surgimento do mocambo está diretamente ligado ao cenário de violência extrema imposto pelo sistema escravocrata nos engenhos de açúcar. Africanos eram submetidos a castigos brutais — que incluíam açoites, mutilações e instrumentos de tortura como troncos, máscaras de flandres e dispositivos de compressão —, realidade que impulsionou fugas e revoltas ao longo dos séculos .
Uma sociedade organizada no coração da mata
A pesquisa de Olegário Venceslau revela que o Mocambo de Osenga não apenas resistia: ele se estruturava como um verdadeiro núcleo político e social. Liderado por Osenga, guerreiro ligado à tradição palmarina, o território contava com hierarquia definida, conselho militar e liderança espiritual, elementos típicos das organizações quilombolas mais consolidadas.
Instalado em uma região de difícil acesso, entre serras e cursos d’água que hoje integram o município de Chã Preta, o mocambo utilizava a geografia como aliada. As matas densas e o relevo acidentado funcionavam como barreiras naturais contra expedições militares, enquanto pontos elevados permitiam vigilância permanente.
Relatos históricos reunidos na obra — incluindo registros do século XVII e descrições de expedições — apontam a presença de plantações, armadilhas e vestígios de ocupação contínua, indicando que ali não havia apenas refúgio, mas autonomia territorial e organização produtiva .
Economia própria e identidade cultural
No campo econômico, o Mocambo de Osenga mantinha uma base de subsistência diversificada, com cultivo de alimentos como milho, feijão e mandioca, além da coleta de recursos naturais e criação de pequenos animais. Essa estrutura garantia independência e sustentação ao grupo.
A religiosidade, por sua vez, refletia a matriz africana de origem bantu, marcada por um sincretismo que integrava crenças tradicionais africanas com elementos do catolicismo. Essa fusão cultural evidencia a capacidade de adaptação e resistência simbólica dos povos escravizados.
Palmares além da Serra da Barriga
Um dos pontos centrais do livro é a ampliação do entendimento sobre Palmares. Para além da Serra da Barriga, o sistema palmarino era composto por diversos mocambos interligados, espalhados por uma vasta área entre Pernambuco e Alagoas.
Nesse contexto, o Mocambo de Osenga surge como peça estratégica desse território ampliado, localizado entre os rios Paraíba e Jundiá, em área que posteriormente daria origem a núcleos populacionais permanentes.
A obra de Olegário Venceslau dialoga com registros históricos clássicos e contribui para reposicionar Chã Preta no mapa da resistência negra no Brasil.

Reconhecimento e resgate da memória
O impacto do resgate histórico já se reflete no presente. Em reconhecimento à relevância do sítio histórico, a Câmara Municipal de Chã Preta aprovou o Projeto de Lei nº 08/2025, que declara o antigo Mocambo de Osenga como patrimônio histórico e material do município.
Mais do que um estudo acadêmico, o livro se afirma como um instrumento de valorização da memória afro-brasileira, trazendo à luz uma narrativa que permaneceu por décadas à margem da história oficial.
Ao revisitar o Mocambo de Osenga, Olegário Venceslau não apenas resgata um território esquecido - ele reconstrói a imagem de um verdadeiro reinado negro, erguido em meio à opressão, sustentado pela organização, pela cultura e pela luta incessante por liberdade.