Por que tentar copiar rotinas "perfeitas" pode estar sabotando sua vida?
Atleta 11 vezes campeã do Ironman, Larissa Fabrini questiona a romantização das rotinas perfeitas e defende a disciplina como ferramenta de organização emocional em um cenário de exaustão com a produtividade extrema
Acordar antes das 6h, treinar, trabalhar, produzir conteúdo, cuidar da vida pessoal, manter uma alimentação equilibrada e ainda encontrar tempo para descansar. A rotina que circula nas redes sociais como ideal de disciplina e alta performance parece, à primeira vista, inspiradora. Na prática, para a maioria das pessoas, ela é simplesmente insustentável.
Esse descompasso ajuda a explicar um movimento crescente de exaustão com a chamada produtividade tóxica, quando o esforço constante deixa de gerar resultado e passa a provocar frustração. Ao tentar replicar agendas pensadas para realidades completamente diferentes, muita gente entra em um ciclo de comparação, culpa e desistência precoce de hábitos que poderiam, sim, ser saudáveis se adaptados.
A atleta profissional e especialista em posicionamento e comunicação Larissa Fabrini, 11 vezes campeã do Ironman, vive uma rotina intensa por definição: treinos diários de alta exigência, gestão de projetos, produção de conteúdo, compromissos pessoais e pausas estratégicas para recuperação. Mas é justamente desse lugar que vem o alerta. “Uma rotina como a minha faz parte da minha profissão. Isso não significa que ela deva servir como modelo para todo mundo”, afirma.
O ponto central, segundo ela, não é intensidade, é constância. E, principalmente, uma constância possível. “Existe uma diferença grande entre disciplina e rigidez. Quando a rotina vira cobrança emocional, ela deixa de funcionar”, diz. Na prática, isso significa que sustentar pequenos hábitos ao longo do tempo tende a ser mais eficiente do que picos de esforço difíceis de manter, uma lógica que contraria a estética dominante de performance nas redes.
Esse olhar mais realista também reposiciona a própria ideia de disciplina. Longe de estar associada a punição ou autocontrole extremo, ela passa a ser entendida como organização emocional: uma forma de estruturar o dia com clareza, respeitando limites e prioridades. “Disciplina, para mim, é o que evita o caos, não o que gera pressão”, explica.
Na vida fora do esporte profissional, a tentativa de seguir rotinas altamente exigentes pode ter o efeito contrário ao desejado. Em vez de aumentar a produtividade, ela esgota. Em vez de criar consistência, ela interrompe processos. É nesse ponto que cresce uma abordagem mais sustentável e cada vez mais presente nas discussões sobre bem-estar: fazer menos, mas de forma contínua e adaptada à própria realidade.
Isso passa, inevitavelmente, por abandonar comparações irreais. Rotinas expostas online raramente mostram o contexto completo: equipe de apoio, flexibilidade de agenda ou o fato de que, para alguns, aquela organização é parte do próprio trabalho. Para quem concilia múltiplas demandas, construir uma rotina eficiente exige outro tipo de lógica: menos sobre copiar, mais sobre ajustar.
Entre os caminhos possíveis, estão entender os próprios horários de energia, priorizar frequência em vez de intensidade, incluir pausas como parte da estratégia e, principalmente, evitar transformar a disciplina em mais uma fonte de cobrança. O descanso, nesse cenário, deixa de ser recompensa e passa a ser estrutura.
No fim, a ideia de uma rotina ideal talvez precise ser revista. Não como algo fixo, rígido e replicável, mas como um sistema vivo, que acompanha fases, limites e prioridades. Porque, mais do que dar conta de tudo, o que sustenta qualquer rotina no longo prazo é simples e menos glamouroso do que parece: ela precisa caber na vida real.