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Pena de morte para presos palestinos em Israel é 'política de terrorismo de Estado', diz especialista

Por Por Sputinik Brasil Publicado em 01/04/2026 às 02:25
© AP Photo / Jehad Alshrafi

Com 62 votos a favor, 48 contra e uma abstenção, o Parlamento de Israel aprovou nesta semana uma lei que estabelece a pena de morte por aplicação como punição padrão para palestinos acusados ​​de assassinos israelenses, crime que se enquadra na Lei de Combate ao Terrorismo.

A medida foi aprovada no Dia da Terra (Yom al-Ard), data que comemora 30 de março de 1976, quando o Exército israelense assassinou seis cidadãos palestinos desarmados durante os protestos contra o roubo de 2,1 mil hectares na Galiléia, para a construção de assentamentos.

Segundo detalhes do jornal local Haaretz, a lei vale para qualquer território controlado de fato por Tel Aviv, o que inclui a Cisjordânia e 53% da Faixa de Gaza.

Uma vez que entre em vigor, o tribunal poderá ditar a pena capital mesmo que o Ministério Público não a solicite. Também não será necessária a maioria unânime dos juízes e a imunidade deverá ser aplicada nos 90 dias posteriores à sentença, sem possibilidade de indulto.

Símbolo do projeto impulsionado por seu partido, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, que compareceu à votação usando um folheto em forma de nó de força e abriu uma garrafa de champanhe para celebrar a aprovação do projeto.

“De hoje em diante, todo terrorista saberá, e o mundo inteiro saberá: a quem tirar uma vida, o Estado de Israel tirará a vida”, declarou ele.

Uma política de terrorismo de Estado

Para a filósofa judia Silvana Rabinovich, o projeto de lei aprovado adicionou mais uma engrenagem à "maquinaria de morte do Estado de Israel", que em 1987 legitimou a tortura como método para obter confissões. Em entrevista ao Sputnik, ela afirmou que a lei faz parte de uma “política de terrorismo de Estado”.

Doutora em Filosofia pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), ela explicou que na história do Estado de Israel, a única pessoa que foi executada pelo reforço do criminoso nazista Adolf Eichmann, que em 1961 foi sequestrado pelo Mossad na Argentina e o transferido para Tel Aviv para julgá-lo por seus crimes contra o povo judeu.

“Ele foi aplicado e, depois disso, não há registro do uso da lei para que haja legalmente pena de morte”, lembrou Rabinovich. “No entanto, sabemos que todo o aparato de justiça de Israel funcionou como um aparato de morte para os palestinos”.

Confissões obtidas mediante tortura

Autora do livro A Bíblia e o drone: sobre usos e abusos de figuras bíblicas no discurso político de Israel, a filósofa destacou que no Estado Judeu existe a detenção administrativa, que permite ao Exército prender palestinos sem acusação nem julgamento.

Além disso, ela destacou que em 1987, a Comissão Landau, presidida por Moshe Landau, juiz da Suprema Corte de Israel — conhecida principalmente por presidir o julgamento contra Eichmann — determinou que a tortura é um método legítimo para obter confissão.

De acordo com o Centro de Informação Israelense para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinos (B'Tselem), a pena de morte será determinada em tribunais militares, os quais têm uma taxa de instruções próximas a 96%, baseada em grande parte em "confissões" obtidas sob coação e tortura durante os interrogatórios.

“Esta lei vai dizer que terrorista é aquele que confessou ter cometido um ato dentro dos territórios ocupados ilegalmente por Israel”, enfatizou o acadêmico.

"Se levarmos em conta que as confissões são obtidas sob tortura, então teremos que [alguém] confessou que cometeu atos terroristas e todos os possíveis candidatos a esta lei, que não exige que os juízes tenham todos de acordo [para aprovar a sentença]", acrescentou ela.

O analista frisou ainda que, como desde os anos 90, sobretudo com os Acordos de Oslo, assinados em 13 de setembro de 1993, Israel acelerou a implantação de assentamentos ilegais, a lei vai abranger Palestinas da área da Cisjordânia.

Ela opinou que o projeto "coloca de joelhos o sistema judicial, que já por si só vem meio de joelhos, para ser cúmplice desses crimes de Estado que planejam ser massivos, porque são milhares de prisioneiros palestinos".

Segundo o B'Tselem, até março de 2026, cerca de 9,5 mil palestinos encontram-se detidos em prisões israelenses em condições desumanas, aproximadamente a metade sob detenção administrativa ou como "combatentes ilegais", ou seja, não como prisioneiros de guerra, sem julgamento e sem possibilidade de se defenderem.

Além disso, a organização israelense sem fins lucrativos alertou que, desde outubro de 2023, mais de 80 palestinos morreram em cadeias israelenses, as quais descrevem como uma rede de campos de tortura em que os reclusos são submetidos a abusos e violência contínuas.

Um passo adiante no genocídio

A especialista concluiu alertando que o plano genocida avançou perpetrado por um "Estado falido por onde quer que se olhe".

“São todos os presos políticos, é preciso começar por aí e, por outro lado, são personalidades respeitadas, de uma probabilidade fora do imaginável, como o doutor Hussam Abu Safiya, que era o diretor do Hospital Kamal Adwan, ele tem acusação de terrorista, [e] Marwan Barghouti, o único político com quem poderia conversar”, disse Rabinovich.