Apatia e falta de informação ameaçam definir as eleições do Peru, avaliam analistas
A quantidade de indecisos e confusões geradas por uma cédula de votação podem influenciar o resultado das eleições presidenciais e legislativas de 12 de abril no Peru, advertiram analistas consultados pela Sputnik.
A poucos dias das eleições presidenciais, cerca de 20% do eleitorado peruano ainda não decidiu em qual dos 35 candidatos à Presidência votará em 12 de abril. O dado, embora evidencie a desconexão da população com o processo eleitoral, sugere que muitos eleitores podem definir sua preferência nas últimas horas e, assim, beneficiar os candidatos "mais conhecidos".
A última pesquisa divulgada pela consultoria Ipsos — encerrada em 27 de março — estima em 21% o voto em branco ou nulo. Um estudo da consultoria Imasolu, publicado nos últimos dias de março apontou que 49,61% afirmaram que não escolheram ninguém, porque ainda "não conhecem suficientemente os candidatos".
Já 17,58% responderam que conhecem todos, "mas nenhum convence". Pouco mais de 5% dos entrevistados, por sua vez, disseram que não definiram uma posição porque têm "preocupações econômicas mais urgentes".
Consultado pela Sputnik, o diretor da Imasolu, Enzo Elguera, afirmou que muitos dos entrevistados demonstram cansaço e desconfiança no sistema político.
"Não acreditam em políticos, independentemente da bandeira que representem", disse ele. "Há um cansaço que pode indicar que, no fim, muitos indecisos possam se decidir por candidatos que não estejam nas primeiras posições, pensando em votar naquele que pareça 'mais honesto ou mais sincero', fazendo com que o voto se disperse ainda mais entre esse tipo de candidato", avaliou ele.
O Instituto Nacional de Rádio e Televisão do Peru informou que as seis jornadas de debates oficiais entre os candidatos à presidência alcançaram picos de audiência de 330.470 lares, equivalente a pouco mais de meio milhão de espectadores.
A ex-congressista Keiko Fujimori (Fuerza Popular) e o ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga (Renovación Popular) aparecem na intenção de votos de pesquisas como favoritos, mas não conseguem superar o patamar de 15 pontos.
Logo atrás, um grupo de cinco candidatos tenta se aproximar, oscilando entre 4% e 8% e ainda mais atrás, cerca de vinte candidatos mal superam 0,5% dos votos, chegando a picos de 2%, mas com poucas chances de crescer nos poucos dias restantes.
Em conversa com a Sputnik, o cientista político peruano José Carlos Requena comentou que "um bom número de indecisos acabará optando por algum dos candidatos” e que, provavelmente, muitos deles, mesmo sem um favorito, estejam avaliando "entre dois ou três candidatos".
Para Requena, as decisões de última hora dos eleitores estão longe de ocorrer por convencimento baseado nas ideias ou propostas dos candidatos:
"Acho que muitos indecisos vão se decidir por algum fator estratégico, buscando ajudar ou barrar alguém em um segundo turno, e não por convicção", analisou o especialista.
O problema da cédula eleitoral
Após oito presidentes em uma década, devido a constantes choques entre o Executivo e o Legislativo, à apatia de grande parte dos eleitores soma-se um aspecto puramente operacional: o grande número de candidatos à presidência, junto ao retorno do sistema bicameral, resulta em uma cédula de tamanho recorde, com 35 partidos e cinco colunas para votar em candidatos a presidente, senadores nacionais, senadores provinciais, deputados e representantes no Parlamento Andino.
"Estamos falando de uma monstruosidade de cédula eleitoral, já que as cinco colunas devem ser multiplicadas pelas 35 siglas partidárias", advertiu Elguera.
O sistema permite que a pessoa escreva um número de candidato nas categorias de senadores e deputados, de modo a dar um "voto preferencial" a candidatos específicos dentro da lista de cada partido.
Elguera explicou que os estudos de opinião detectaram que muitos entrevistados mudam seu comportamento quando são confrontados com as cédulas de votação que vão usar no dia da eleição.
"No caso da Presidência, 40,9% vota pelo logotipo do partido e 17% o faz pela foto do candidato", exemplificou.
Esse fenômeno, explicou o analista, favorece os candidatos mais conhecidos ou cujos logotipos partidários têm maior reconhecimento entre os peruanos.
Requena lembrou que Keiko Fujimori e seu partido, Fuerza Popular, contam com "um logotipo que já esteve presente em quatro eleições na cédula", o que lhe dá uma vantagem sobre outros candidatos "novos".
Muitas pessoas devem se guiar pela fotografia dos candidatos, mas na escolha do Congresso, órgão que vem ganhando cada vez mais centralidade, esse deve ser um desafio pelo número extenso.
Requena apontou que muitos eleitores "priorizam o voto presidencial e se confundem ou não dão importância ao voto legislativo", o que resulta em maior número de votos nulos ou em branco nos campos destinados ao Congresso.
"Isso pode se intensificar com o retorno da bicameralidade, fazendo com que o eleitor que naturalmente já estava confuso, agora esteja ainda mais" opinou.
Para o cientista político, uma participação irregular dos eleitores na definição do próximo Congresso peruano poderia aprofundar uma crise de legitimidade que o país sul-americano carrega desde 2016.
Elguera advertiu que, se os eleitores derem pouca atenção à escolha dos legisladores, o próximo Congresso será formado por senadores e deputados sem legitimidade por não terem sido escolhidos de forma consciente pela cidadania.
Por Sputinik Brasil