INTERNACIONAL

Análise: com usina nuclear russa, Vietnã se livra de 'amarras ocidentais'

Por Sputinik Brasil Publicado em 09/04/2026 às 19:20
© Sputnik / Kristina Solovyova

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas enalteceram posição da Rússia na expansão global da energia nuclear e os benefícios que Hanói terá com variação de matriezes energéticas.

O Vietnã selou com a Rússia, no último mês de março, um acordo para a construção da primeira usina nuclear vietnamita, a Ninh Thuan 1, com tecnologia da empresa russa Rosatom. A expectativa é que o projeto acrescente 2.400 megawatts para o setor energético de Hanói.

As conversas entre Vietnã e Rússia começaram há mais de uma década, mas foram interrompidas pouco depois pelo governo vietnamita. A instabilidade geopolítica recente e o atual cenário de fenômenos climáticos extremos, no entanto, fizeram com que Hanói retomasse o interesse na energia nuclear, em um momento em que a Rússia se destaca como expoente global no setor.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas enalteceram a posição russa na transferência de tecnologia nuclear para países do Sul Global, além dos benefícios da utilização desse tipo de matriz energética por parte do Vietnã.

Matheus Jorge, embaixador da educação nuclear da Rússia e engenheiro químico especialista em defesa química, biológica, radiológica e nuclear, explica que os vietnamitas tentam consolidar um programa nuclear desde a década de 1990. Países como Estados Unidos e Japão já conversaram com Hanói, mas foi o projeto russo que cativou o país asiático.

"Essa parceria entre Rússia e Vietnã não é só energética. É uma parceria estratégica para que o Vietnã se torne um parceiro tecnológico da Rússia. Isso aconteceu não só com o Vietnã, mas com o próprio Irã [...] e está acontecendo agora com a Hungria, o Bangladesh e uma série de outros países ao redor do planeta em que a Rússia está construindo essas usinas."

Jorge explica que esta é uma parceria em que ambos os lados saem ganhando. Enquanto o Vietnã consegue escapar da dinâmica ocidental do petróleo e de seus consquentes dramas, como agora com o fechamento do estreito de Ormuz, a Rússia continua diversificando seus produtos de exportação, assim como seus parceiros.

"A Rússia teve um aumento drástico das suas exportações na área nuclear. Isso a gente conseguiu ver tanto no World Atomic Week, que aconteceu em Moscou em 2025, assim como no Obninsk New, que é o Nuclear Education Week, que foi apresentado em 2025 e também em uma outra versão em 2024, em que de 90% a 93% de quase todos os projetos nucleares da Rússia estão sendo no exterior."

Luciana Garcia de Oliveira, professora de geopolítica da Ásia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), conta que o Vietnã sofre com apagões constantes devido a temporais cada vez mais comuns graças às mudanças climáticas registradas em todo o mundo. Fatores externos, como as tensões no Oriente Médio, fizeram o preço dos combustíveis subirem até 70% no país, o que obriga Hanói a buscar matrizes energéticas mais estáveis e confiáveis.

"O Vietnã de dez anos atrás era muito mais agrícola do que ele é hoje. Não havia tantas indústrias como existem hoje, principalmente na sua capital. É uma região que cresceu economicamente nesses últimos anos, não só o Vietnã, como vários países do Sudeste Asiático, sob influência chinesa."

A parceria da Rússia, todavia, não impede que o Vietnã busque outros parceiros no setor, destaca Oliveira.

"No início deste ano o governo do Vietnã havia declarado sua intenção — apesar do acordo com a Rússia que é datado desse ano de 2026 — em manter conversas a respeito de outros projetos nucleares além da Rússia, com o Japão, com a Coreia do Sul e também com os Estados Unidos e a França, em um gesto mais pragmático, diplomático com os países também do Ocidente."

Existem riscos para o Vietnã?

Acidentes nucleares como o de Chernobyl, na Ucrânia, na década de 1980, e o de Fukushima, no Japão, já neste século, fazem com o pensamento popular sobre usinas nucleares remeta diretamente ao risco de contaminação de uma região.

Por este motivo, Jorge faz questão de destacar a evolução que a tecnologia teve ao longo dos anos, a qual ele exime de riscos de acidentes como os citados acima. Além da evolução no setor, a adoção de novos protocolos mitigam o risco para a população civil.

"Não existe nenhum tipo de risco de explosão, risco de contaminação, risco da usina acabar se tornando uma nova Chernobyl, uma nova Fukushima. Isso são coisas totalmente do passado e são mitos que precisamos quebrar."

Por outro lado, Jorge diz que a grande procupação não deve ser radioativa, mas sim as pessoas. Ao se livrar da dependência causada pelo petróleo e se alinhando à Rússia neste projeto, o especialista aponta a possibilidade de ações de sabotagem que podem partir do Ocidente.

"O Vietnã vai estar quebrando essas amarras ocidentais que foram impostas a ele, energeticamente falando. A gente coloca o Vietnã em uma posição de risco de espionagem, de sabotagem, de qualquer tipo de problemática que envolva a construção dessa usina."

Oliveira reforça a necessidade de países do Sul Global priorizarem parcerias entre si em diversos setores, como em energia — um dos mais vitais para a estabilidade e soberania de uma nação.

"É muito importante que países do Sul Global, incluindo o Brasil e os países do Sudeste Asiático, possam ter cooperações [...] para fins de fortalecimento da economia e energético em um período que é bastante sensível."