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Por que o 'Pix mexicano' não deu certo como o método de pagamento brasileiro?

Publicado em 10/04/2026 às 02:27
© Foto / Ricardo Stuckert / Presidência da República

Enquanto vários países lutam para implementar com sucesso um sistema de pagamentos eletrônicos massivo e acessível, o Brasil alcançou algo extraordinário com o Pix, que processa bilhões de dólares em transações diárias. A Sputnik conversou com um especialista para entender os fatores por trás desse sucesso.

Após a polêmica gerada por um relatório dos EUA que criticava o Pix, o sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido e operado pelo Banco Central do Brasil, usuários de redes sociais no México expressaram o desejo por um modelo semelhante.

"Queremos o Pix no México, estamos fartos de pagar comissões para financiar genocídio!", escreveu um usuário no X.

No entanto, o país latino-americano já possui o CoDi, uma plataforma desenvolvida e lançada pelo Banco do México (Banxico) em 2019 para realizar e receber pagamentos sem comissão via celular.

Apesar das características do CoDi, seu uso no México só se compara ao do Pix no Brasil, onde os cidadãos estão cada vez mais abandonando o dinheiro em espécie e os cartões, segundo dados compilados pelos bancos centrais de ambos os países:

Foto:

CoDi:

Um caso excepcional

“É um fenômeno bastante interessante e, de fato, o que aconteceu no Brasil é extraordinário”, disse à Sputnik o economista César Francisco Duarte Rivera, pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas (IIE) da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), especializado no estudo de criptomoedas e moedas digitais.

"O Brasil não é o caso paradigmático, mas sim a exceção nesse tipo de processo", visto que "outros países que buscaram ajustes semelhantes são um pouco mais parecidos com o México", no sentido de que leva muito tempo para a sociedade aceitá-los ou utilizá-los no dia a dia.

Entre os fatores que influenciaram o sucesso de ambas as iniciativas, Duarte Rivera detalha que um dos mais significativos tem um pouco a ver com o momento de seu lançamento: enquanto o CoDi foi lançado antes da pandemia de Covid-19, o Pix foi lançado em 2020, dados que coincidem com o início da crise sanitária.

“Digamos que o Pix não estava no lugar certo na hora certa, justamente quando estávamos todos preocupados porque não tínhamos certeza de como o vírus era transmitido, se era seguro usar dinheiro em espécie, e o Pix ofereceu uma solução para realizar pagamentos sem contato”, afirma o economista.

Ele acrescenta que “o CoDi já existia, e as pessoas não lhe davam muita atenção, então não se pensou muito em implementá-lo”.

Acordos são necessários

Outro fator, aponta Duarte Rivera, tem a ver com “um aspecto muito curioso que ocorre com esses sistemas de pagamento”, que, para se divulgarem, precisam ser aceitos por todos.

"As pessoas só começam a aceitá-los quando veem que todos os outros os aceitam, os usam, e a questão é: como começar?"

Uma resposta, explica o economista, é estabelecer acordos amplos entre os promotores da iniciativa, neste caso, os bancos centrais, e as empresas, principalmente aquelas com presença nacional, como redes de supermercados, lojas de departamentos, mercearias e lojas de conveniência.

“Uma coisa que o Brasil fez muito bem foi garantir, desde o início, acordos com esses tipos de agentes, o que significou que, quando o Pix surgiu, estava em todos os lugares”, explica o pesquisador.

O Banco Central do Brasil tornou obrigatório o uso do Pix para instituições financeiras e de pagamento com mais de 500 mil contas ativas. Isso significa que praticamente todos os bancos e fintechs do país devem oferecê-lo como forma de pagamento. Além disso, o sistema é gratuito para pessoas físicas, o que incentiva seu uso generalizado em empresas, serviços e transações entre pessoas.

No entanto, ele afirma que não é tão fácil encontrar locais para usar o CoDi, e não houve uma grande campanha de divulgação explicando que é essa ferramenta, por que ela é útil ou por que é conveniente usá-la ao realizar transações.

“No fim das contas, tudo se resume a uma questão de percepção [e as pessoas se perguntam]: por que eu usaria algo novo se não resolver uma necessidade minha, ou por que eu usaria o CoDi se posso pagar com meu cartão?”, destaca o especialista.

Nesse sentido, ele acredita que o Banco do México precisa compensar sua estratégia, “buscando uma ferramenta muito mais abrangente que permita diferentes funções, como o Pix”.

Benefícios de um sistema de pagamento local

Em meio às negociações entre o Brasil e os Estados Unidos, o presidente colombiano Gustavo Petro pediu ao seu homólogo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que estendesse o Pix ao seu país. Para o presidente colombiano, o modelo brasileiro seria uma alternativa mais eficiente dentro do sistema financeiro internacional.

Contudo, nenhum país sul-americano, o Bre-B já existe. Lançado no segundo semestre de 2025 pelo Banco Central da Colômbia, o sistema permite transferências entre contas sem restrições de tempo e com velocidade de 20 segundos.

“A importância de um sistema como o Pix está precisamente relacionada à ocorrência nos Estados Unidos”, aponta o economista, explicando que “um risco muito alto associado à crescente digitalização dos pagamentos” é que ainda utilizamos sistemas privados e estrangeiros.

"Usamos Visa, Mastercard, MercadoPago, que é argentino [...]. O problema é que, por sermos privados, o que realmente é priorizado é o lucro", observa Duarte Rivera.

Outro aspecto relevante de sistemas como Pix, CoDi e Bre-B, afirma o pesquisador, é que eles permitem maior inclusão financeira, além de serem mais seguros, rápidos e isentos de custos associados.

Além disso, esses sistemas conferem aos governos maior controle sobre as transações, o que, em países como os da América Latina, é fundamental para lidar com problemas como insegurança e lavagem de dinheiro, entre outros, enfatiza o economista.

Um Pix regional é?

Questionado sobre as previsões de um sistema de pagamentos regional, Duarte Rivera acredita que é totalmente possível em termos econômicos e técnicos. No entanto, o mesmo não se aplica politicamente, já que implicaria, entre outras coisas, abandonar o uso do SWIFT — o sistema bancário internacional criado em Bruxelas e sobre o qual Washington exerce maior influência — para transações na América Latina e no Caribe.

Além disso, o especialista destaca que o atual equilíbrio político pende para a direita, sendo altamente indicado que um grande número de países da região aderisse a uma iniciativa que implica em virar as costas para os EUA.


Por Sputinik Brasil