Trabalhadores vão às ruas em SP contra a escala 6x1 em dia de votação frustrada na CCJ
Em meio a negociações políticas em Brasília e com manifestações por todo o Brasil, centenas de manifestantes foram às ruas em São Paulo (SP) nesta quarta-feira (15), protestar contra a escala 6 por 1, regime que obriga o trabalhador a cumprir seis dias de trabalho para cada dia de folga.
Hoje também teve a Marcha da Classe Trabalhadora, que levou milhares à Esplanada dos Ministérios na capital federal, e uma sessão tensa na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, onde a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala foi adiada por manobra da oposição.
Entre os presentes nos atos paulistanos estava William Agulhão, trabalhador da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e militante do Movimento Luta de Classes, filiado à Unidade Popular. Para ele, é preciso estar presente nas ruas para conseguir mudanças práticas no país. "É para a gente realmente se organizar e mostrar que através da luta organizada que a gente consegue acabar com essa escala 6x1", afirmou.
Segundo ele, a maioria dos trabalhadores submetidos ao regime recebe próximo ao salário mínimo brasileiro. "Mais da metade aí dos trabalhadores que estão nessa escala recebem até R$ 2 mil. Quem hoje consegue viver com esse salário no nosso país? É um absurdo a gente não fazer essa manifestação.”
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo ideal em dezembro de 2025 deveria ser de R$ 7.106,83 — valor calculado com base na cesta básica mais cara do país e no custo real de alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência para uma família de quatro pessoas.
O piso nacional, no entanto, é de R$ 1.621, menos de um quarto do valor considerado necessário.
Para Agulhão, o fim da escala 6x1 seria apenas um passo dentro de uma luta mais ampla. "O fim da escala 6x1 ainda é pouco, porque os trabalhadores produzem e produzem de forma absurda no nosso país", declarou.
Ele denuncia o que chama de superexploração do trabalho e seus impactos sobre a vida cotidiana dos trabalhadores. "A gente é super explorado nessa escala, não consegue passar um tempo com a nossa família, com nossos filhos. Nossos filhos a gente não consegue nem dar um beijo de boa noite, porque a gente está produzindo para o patrão enriquecer."
"A gente vê aí recordes e recordes de lucro, mas esses lucros não são repassados para a classe trabalhadora, porque a gente ainda vive no sistema capitalista, que é onde a burguesia se apropria de forma sem vergonha da riqueza dos trabalhadores", disse, defendendo uma revolução no país.
Trâmites
Pedido de vista coletivo feito pelas lideranças do PSDB e do PL na CCJ da Câmara dos Deputados adiou a votação sobre a constitucionalidade da PEC que acaba com a escala 6x1. O adiamento ocorreu após pedido do deputado federal Lucas Redecker (PSD-RS), que classificou o tema como "sensível" e solicitou mais tempo para análise.
Ainda assim, o avanço do relator foi positivo para o campo favorável à mudança. O relator da proposta na CCJ, deputado Paulo Azi (União-BA), apresentou parecer favorável à admissibilidade da matéria, mas defendeu um debate mais aprofundado sobre regras de transição e impactos econômicos.
O movimento da oposição no Congresso se insere num quadro de pressão empresarial. Os presidentes do PL, Valdemar Costa Neto, e do União Brasil, Antônio Rueda, já haviam prometido trabalhar para impedir a votação do fim da escala 6x1 em encontro com empresários em São Paulo, em fevereiro. Juntos, os dois partidos somam 139 dos 513 deputados da Casa.
Em resposta à resistência parlamentar, o Executivo federal tomou uma iniciativa paralela. Temendo atrasos na votação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enviou ao Congresso, na terça-feira (14), projeto de lei com urgência constitucional para acabar com a escala 6x1 e reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais.
O PL com urgência precisa ser votado em até 45 dias ou tranca a pauta do plenário da Câmara. O texto prevê a redução da carga semanal máxima para 40 horas, abaixo das atuais 44, e limita a jornada diária a oito horas.
A proposta determina que a diminuição da jornada se aplique a todos os trabalhadores com contratos vigentes, sem qualquer redução salarial ou alteração nos pisos das categorias. Além disso, estabelece o direito a duas folgas semanais consecutivas de 24 horas, que deverão ocorrer, preferencialmente, aos sábados e domingos.
Após a Reforma Trabalhista aprovada pelo governo Michel Temer, a adoção da escala 6x1 se tornou cada vez mais comum, com objetivo de reduzir pagamento de horas extras e adicionais.
Nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicada em fevereiro de 2026, concluiu que os custos da redução da jornada para 40 horas seriam comparáveis aos de reajustes históricos do salário mínimo, medidas que não geraram desemprego.
Nos grandes setores empregadores, como indústria e comércio, o impacto no custo operacional seria inferior a 1%.