À Sputnik Brasil, ex-chefe da Petrobras explica paradoxo energético e 'desperdício' de renováveis
Em pouco mais de duas décadas, as energias solar e eólica passaram de pouco participativas para responsáveis por mais de um terço da capacidade de energia nacional. À Sputnik Brasil, o ex-presidente da Petrobras e pré-candidato ao Senado Jean Paul Prates fala sobre o crescimento das fontes, os desafios dos usos e sobre transição energética.
Ao passo que as matrizes cresceram, sobretudo a partir da chamada geração distribuída, ou seja, as placas solares colocadas em telhados e sistemas autônomos, o Brasil teve que deixar de usar cerca de 20% de toda a energia solar e eólica em 2025. Isso acontece porque o país precisa conter o excesso de oferta. A medida, chamada de curtailment, é necessária, inclusive, para evitar o risco de apagões. Parece um paradoxo, mas o eventual excesso de energia poderia, portanto, acarretar em queda no sistema.
Isso ocorre com as energias eólica e solar porque, conforme explica Prates, há estações que se venta mais ou menos e, no caso do sol, pelo ciclo solar.
"Muita gente devolve energia através da distribuidora para o sistema. E isso gera esse estouro de oferta durante períodos do dia, justamente no período do pico do sol, entre normalmente dez horas da manhã e quatro da tarde, você tem a chamada curva do pato, que é um aumento brutal de oferta que faz com que, como o sistema não tem como ligar para cada casa de cada pessoa para pedir para desligar o sistema solar, são milhares de pessoas, ele vai ligar para o mais fácil, ele liga para o gerador grande e diz: 'Amigão, desliga a sua planta eólica, desliga a sua planta solar agora, porque você está estourando aqui a oferta de energia no sistema'", destaca.
O Brasil conta com o Sistema Interligado Nacional (SIN), onde as matrizes estão interligadas e há planejamento entre oferta e demanda. A partir de leilões federais as distribuidoras compram energia das geradoras e assim a energia elétrica chega nas casas dos consumidores.
"O governo vai fazendo seu planejamento majoritariamente com base na informação que as distribuidoras vão dando das suas demandas atuais e futuras, para fazer um planejamento de cinco anos, dez anos. É assim que o sistema elétrico é planejado", afirma.
Entretanto, em meio a contratos que também são fechados de forma direta, como cita Prates, as já mencionadas gerações distribuídas acontecem. "Esses sistemas que a gente acha que é uma coisa pequena, somados, hoje, passam de 44 gigawatts de capacidade instalada no Brasil".
Nesse sentido, o especialista chama a atenção que deve haver um rearranjo nos subsídios para reequilibrar o sistema elétrico, uma vez que, em uma das pontas, é o consumidor das distribuidoras que acaba pagando a conta da economia no bolso de quem é beneficiado pelo sistema solar.
Não se trata, conforme ressalta Prates, de onerar e frear o incentivo à energia solar. No início, ele recorda, foi criado um sistema altamente subsidiado e incentivado para que as pessoas utilizassem a geração distribuída. "Até criamos janelas para que fossem criados consórcios, plantas solares que abastecem grupos de pessoas", recorda de quando era congressista.
Porém, o sistema cresceu rapidamente e não foi anotado pelos órgãos reguladores como aumenta de oferta, mas redução de demanda.
"Isso tem um efeito, porque, na hora que você faz o balanço, você considera alguma redução de demanda, é claro que a pessoa vai tirar menos energia da distribuidora, mas não consideraram que o aumento de oferta é resultante de quando o cara gera a mais do que ele consome e devolve para o sistema, que é o que a maior parte das pessoas procura, porque ela recebe descontos progressivos ao longo das contas de energia futuras. Então, muita gente devolve energia através da distribuidora para o sistema", explica citando o funcionamento do sistema em momentos de pico de raios solares.
São nesses momentos de maior incidência de sol, por exemplo, que o curtailment entra em ação e às vezes "aí 40%, 50, às vezes 80% de uma usina para. Ele tem um corte ali de expectativa no fluxo de caixa do projeto que torna o projeto ao longo do tempo inviável, impagável", aponta.
"Uma das categorias que está realmente pagando a conta de cara é o consumidor que não tem geração distribuída, ou seja, o que não consegue instalar painéis solares, seja pela situação geográfica em que ele está, digamos, na sombra, como se diz, ou pela situação social que ele vive".
Na dinâmica atual, portanto, o especialista defende a revisão dos subsídios dado no início da operação dos sistemas de painéis solares.
"O tempo de retorno do investimento no sistema solar caiu da ordem de sete anos, seis anos, para um ano e meio. Se você retirar alguns incentivos e colocar também alguns serviços que a própria distribuidora também provê, que é quando você devolve a energia que sobra do seu sistema solar, ele usa a rede da distribuidora, sim. Então, se você colocar esses encargos, esse payback do teu sistema volta para dois anos, dois anos e meio. Cada um contribui um pouquinho", analisa
O resultado dessa equação, conforme explica o ex-presidente da Petrobras, é o sufocamento de usinas que pode acarretar, aí sim, na contenção de novos projetos em eólica e solar enquanto não tiver uma solução para esse problema. Um estudo na Volt Robotics, citado pela Folha de S. Paulo, mostrou que em 2025 agentes eólicos e solares sofreram perdas de R$ 6,5 bilhões por causa dos cortes.
Segundo Prates, outros países passaram por problemas semelhantes pela entrada simultânea de outras fontes de energia com as novas matrizes renováveis. A solução, segundo ele, passa pela digitalização do sistema de transmissão e distribuição, além da implementação de baterias armazenadoras.
No caso das baterias, o Ministério de Minas e Energia chegou a abrir um leilão de Sistemas de Armazenamento em Baterias, mas a iniciativa ainda não avançou.
"O Ministério de Minas e Energia, nomeadamente, tem privilegiado as soluções erradas para esse problema do curtailment. Ele adiou os leilões de baterias, alegando problemas de terminologia e de definição regulatória, coisa que o cara senta numa mesa para trabalhar com boa vontade e consegue fazer rapidamente, consultas, faz audiência pública se necessário, você não precisa levar três anos para organizar um leilão de baterias", critica.
Ao passo que isso acontece, ele comenta que vê o governo acionar outras fontes de energia, "talvez por lobby, talvez por influência, talvez por estarem localizadas no Sudeste em detrimento do Nordeste. O fato é que o governo fez vários leilões para colocar em marcha termoelétricas a gás natural, termoelétricas a carvão de novo e outras possíveis soluções que não são de caráter renovável", acrescenta.
Neste caso, ao invés diminuir o curtailment, a tendência é aumentar o corte, uma vez que tais fontes atuarão nas mesmas linhas de transmissão.
Tarifa zero no transporte público em até 40 anos
Pré-candidato ao Senado, Prates defende a mudança do eixo industrial no Brasil, algo que de acordo com ele incomoda muito. Em dez anos, com estrutura de reserva de energia renovável, estados como Ceará, Rio Grande do Norte e o Piauí, a partir de matrizes eólica e solar, podem oferecer uma tarifa competitiva e barata às indústrias.
"Em menos de dez anos você vai conhecer um movimento migratório, corporativo, industrial para a nossa região, por causa da energia limpa e por causa do valor dessa energia e da abundância quase ilimitada de recursos renováveis para a geração de energia aqui", atesta.
Conforme acrescenta, a região poderá abrigar "siderúrgica verde de verdade, eletrificada, sem combustão alguma, apenas com eletricidade. Terá um fenômeno também, que eu acho que deve ser estimulado, inclusive pelos estados daqui, que é a eletrificação das frotas, mais rápida do que o resto do Brasil. [...] Em menos de 40 anos você vai ter toda essa frota eletrificada e você vai ter um parque industrial importantíssimo no Piauí, no Ceará, no Rio Grande do Norte, nesses lugares onde existe potencial de energia praticamente infinito, renovável, à disposição da sociedade".
Nesse sentido, ele ressalta, também, a popularização da energia renovável para moradias, para que, no caso de carros e motos eletrificadas, o trabalhador possa desfrutar de economias que hoje são sentidas majoritariamente na parte de cima da pirâmide social.
Sobre o transporte público, Prates defende o processo de eletrificar as frotas, o que daria oportunidade ao Brasil em pensar em um sistema genuinamente público, com gratuidade na tarifa. A ideia, inclusive, pode ser implementada de forma gradual, defende.
"É possível, com eletrificação de frota e inteligência na distribuição e na transmissão de energia, que a gente comentou aqui, prover ao cidadão brasileiro, em menos também de 40 anos, tarifa zero em transporte público para todo o Brasil. E isso tem que ser perseguido parcimoniosamente, racionalmente, em conjunto com as empresas, concessionárias, prefeituras, estados, que têm que compreender e ser ajudados por marcos legais que a eletrificação permite isso".
O que falta para o salto elétrico brasileiro?
Prates observa que o Brasil tem dado tratamento preferencial ao biocombustível, importante para a transição energética, mas incoerente com a necessidade de várias partes do território.
"O documento que o Brasil apresentou e todas as discussões que conduziram na COP30 foram majoritariamente em cima de biocombustíveis. E biocombustíveis não é a etapa final da transição energética, ele é parte disso. Outro sintoma, o projeto que se apresentou como a grande realização da transição energética brasileira nos últimos tempos chama-se 'combustível do futuro' e consiste apenas em aumentar a mistura obrigatória nacional de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel", afirma.
A proposta, no entanto, de acordo com o ex-presidente da Petrobras, ao apresentar uma reserva de mercado nacional, "não faz sentido nenhum". Segundo ele, "poderia ser regional, eles poderiam usar mais biodiesel lá no Centro-Oeste e nós menos aqui no Nordeste, já que não produzimos mais, porque destruíram a competitividade do biodiesel de agricultura familiar com o biodiesel de soja".
O analista ressalta que ao contrário do que é chamado — combustível do futuro —, "é um combustível de transição, tanto quanto o gás natural é. Ele é menos carbonizado do que os derivados de petróleo, mas o combustível de futuro é eletromobilidade, é eletricidade, óbvio. Não é à toa que a China pulou essa etapa".
"A China considera que a terra deles não é para queimar milho e queimar cana, é para plantar alimento", destaca.
Atualmente, Pequim é um grande exemplo na transição energética, com "recordes absolutos de implantação de energia eólica e solar", comenta Prates. "Os caras estão fazendo a transição energética de verdade", adiciona.
Além do gigante asiático, Prates também salienta que países da União Europeia e nórdicos como a Noruega passaram pelo biocombustível, mas como fonte de transição.
"O etanol, obviamente, é uma conquista brasileira. O biodiesel também tem seu mérito mas não é absolutamente o combustível do futuro", insiste.
Internacionalização da Petrobras e aproximação com o México
Prates, que chefiou a estatal por cerca de um ano e três meses entre 2023 e 2024, afirma que no atual momento de encarecimento do preço do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio e o bloqueio do estreito de Ormuz, o processo de internacionalização da Petrobras é importante, inclusive aumentando o leque de parceiros.
A petroleira faz movimentos como a parceria com o México para explorar o golfo do México. O ex-chefe da empresa avalia que a iniciativa faz parte de uma prospecção de novos negócios que é sequencial na gestão da estatal.
Ele recorda que a região do golfo do México já fora explorada, por cerca de 20 anos, mas o "lado estadunidense", a partir de Houston. Agora, a empresa se volta para o "lado mexicano".
"O golfo do México mexicano ainda está em um estágio de desenvolvimento mais atrasado, então a Petrobras, com a diferença que ela faz, com a expertise que ela tem, sendo a melhor companhia offshore do mundo, pode de fato contribuir para o México, pode descobrir coisas importantes para o Brasil e pode desenvolver uma parceria interessante lá com o nosso país amigo", destacou.