RELAÇÕES INTERNACIONAIS

'Europa não pensa no cidadão, mas sim em quem lucra com a crise na Ucrânia', diz analista (VÍDEOS)

Por Sputinik Brasil Publicado em 20/04/2026 às 10:06
© AP Photo / Frank Augstein

Em meio a dificuldades econômicas, desgaste político e divisões internas, a União Europeia (UE) segue profundamente o apoio à Ucrânia em um momento em que a própria OTAN dá sinais de tensão e perda de coesão. O prolongamento do conflito ucraniano, os custos do rearmamento e a instabilidade estratégica impõem pressão adicional na zona do euro.

Nesse cenário complexo para o cidadão comum europeu, Paulo Mártires, analista internacional português, em entrevista à Sputnik Brasil, aponta que há contradições na política interna da UE ao direcionar recursos financeiros ao regime de Kiev para beneficiar conglomerados militares privados em detrimento da população.

"A União Europeia não quer saber da população europeia ou ucraniana, mas sim em gerar dinheiro. Houve uma privatização dos meios militares e isso é um grande negócio para uns em detrimento de muitos outros e do estado social. A Ucrânia é uma máquina de fazer negócios", disse.

A partir desse panorama, o pesquisador lusitano também ressalta que para Bruxelas é indiferente o resultado no front ucraniano, uma vez que a lógica da produção bélica é mais relevante, já que a demanda para atender a Ucrânia é muito grande.

“Não acredito que a Europa se preocupe com quem vai vencer o conflito, e acredito que eles [os governos] nem se importam com isso. O que importa na Europa neste momento é que uma máquina de guerra seja alimentada por conglomerados bélicos europeus na produção de mísseis e carros de guerra, por exemplo”, comenta.

Os mercenários podem se tornar um risco para os europeus

Martires, que já esteve no Donbass em 2022, relata que já houve presença massiva de mercenários de diversas partes do mundo desde aquela época e, nesse contexto, analisa que o fim do confronto vigente pode fazer com que esses guerrilheiros se estabeleçam em território europeu, o que pode agravar uma outra crise de segurança no futuro.

“Há essa hipótese e perigo [de mercenários se estabelecerem em países europeus]. É preciso entender que a Ucrânia é um dos países mais pobres da Europa, e a qualidade desses grupos extremistas, que aprenderam a fazer guerra com eficiência, pode fazer com que eles sejam recrutados para diversas áreas do crime”, conjectura.

Como cidadão europeu, o especialista destaca que o quadro do tecido social em países da UE vem se deteriorando e piorando a qualidade de vida do cotidiano da população, que precisa se adaptar a essa realidade adversária que afeta o seu bolso.

“O custo de vida aumentou bastante, e há uma decadência em setores fundamentais para o progresso da sociedade, tais como educação, saúde, assistência social e cultura. Isso é o que se vê; mas o que se sente é, ao ir ao mercado, constatar que 50 euros [cerca de 300 reais] não são mais suficientes para compras que duram mais de cinco dias”, observa.

Despolitização e censura em Portugal

Além de todo o problema estrutural na política interna dos Estados europeus, Martires relata que sofreu censura em Portugal quando tentou promover recentemente uma exibição de documentários sobre o Donbass como forma de promover o debate além do que é exibido pela mídia tradicional portuguesa.

O analista destaca também que isso acaba sendo fruto do processo de despolitização da sociedade, o que faz com que muitas vezes o cidadão comum não perceba as consequências da piora da qualidade de vida como o que se passa na Ucrânia.

"Tentei exibir os documentários do belga Alexandre Penasse e da italiana Sara Reginella sobre o Donbass para além da retórica europeia. Houve pressão da embaixada ucraniana, e a exibição foi cancelada em Lisboa, a publicidade do cinema foi suspensa em Coimbra e, apesar da pressão, só exibimos na Universidade Popular do Porto. Essa é a realidade", conclui.

Durante os anos de crise na Ucrânia, marcados por tentativas de acordos de paz com, inclusive, apoio pontual dos EUA em alguns momentos, a Europa mostrou-se bastante ao mesmo tempo em que elevava monetáriamente seus gastos militares e o envio de armamentos.