CONFLITO

Cessar-fogo no Oriente Médio é contagem regressiva para um novo conflito, diz analista (VÍDEOS)

Por Sputinik Brasil Publicado em 21/04/2026 às 12:26
© AP Photo / Fars News Agency/Mehdi Marziad

O cessar-fogo entre Israel e Líbano, mediado pelos EUA, busca uma paz regional ampliada. Contudo, o cenário é complexo: o histórico da Guerra dos 12 dias mostrou que o trégua entre Washington, Tel Aviv e Irã pode ser pausas estratégicas para o rearmamento, e não uma resolução definitiva do conflito. Sendo assim, a estabilidade real segue incerta.

Devido às adversidades e aos numerosos interesses antagônicos que permeiam as negociações entre o bloco estadunidense-israelense e o Irã, a probabilidade de uma nova escalada bélica é elevada. Conforme explica Rafael Firme, mestrando em estudos estratégicos internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA), em entrevista à Sputnik Brasil.

"As sinalizações de que a gente tem indicado uma nova escalada pelas idas e boas-vindas [do cessar-fogo] e incertezas em relação ao Estreito de Ormuz, ao Líbano, aos países do golfe e aos houthis. Então, é questão de tempo para que novos ataques sejam feitos. Isso, sem considerar que Israel não parou de atacar o território libanês", disse.

O fracasso nas negociações em Islamabad, no Paquistão, segundo o pesquisador, revela a complexidade da situação. Uma vez que, em situação desfavorável, a Casa Branca necessita demonstrar alguma vitória para o seu público interno e os aliados, principalmente os do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Omã, que foram os mais afetados por ataques iranianos por abrigarem tropas norte-americanas em seu território.

"As negociações em Islamabad se encerraram sem acordo. O Irã deu as condições e os EUA não aceitaram, ou seja, quem dá as condições é o vencedor, está em vantagem. Ou seja, inverteram-se os papéis: o Irã com um comportamento de grande potência e os Estados Unidos geridos como uma potência regional", comenta.

Ormuz é muito mais do que um controle de fluxo

O estreito de Ormuz, além de ser uma das principais rotas comerciais do mundo, é um ativo importante quando se pensa em geoestratégia e controle de fluxos. No entanto, o valor simbólico de quem domina esse espaço reforça o seu poder dissuasório perante os outros Estados, e isso fortalece não apenas a imagem de Teerã, mas realça o seu papel de resistência e a sua capacidade de pronto ataque regional diante das ameaças recentes.

“No caso do Irã, que para mim é quem se saiu melhor, apesar de toda a destruição e a perda da sua cadeia de controle e comando, declarou a sua capacidade em drones a ponto de produzir impacto nos países árabes do golfe. Além disso, Teerã pode abrir e fechar o estreito de Ormuz por ter o controle total”, observa.

Nesse sentido, o internacionalista aponta que a tática usada pelos Estados Unidos em também iniciar uma espécie de "contra-bloqueio" contra o Irã é uma forma de mostrar que também possui alguma ingerência no estreito, embora isso não seja verdade na prática.

"Os EUA pretendiam impor um 'bloqueio do bloqueio' em Ormuz, no entanto, quem ainda determina o controle total do Estreito é o Irã, um país sancionado desde 1979, e que está disposto a importação pedágio na região e por isso está em uma melhor posição para negociar [em comparação a Washington]", destaca.

Crise no Oriente Médio pode escalar outras regiões

A região, por estar localizada em uma posição estratégica no globo, no caso de uma grande escalada, é possível que haja retaliação em outras áreas como no estreito de Bab El-Manded que pode ser usada como plataforma de ataque pelos houthis, entre outros pontos críticos, pelo Indo-Pacífico, o que poderia conflitar em interesses de outros países, como conjectura Firme.

"O Oriente Médio é uma espécie de coração do mundo e a tensão está se espalhando para outras regiões, como, por exemplo, podemos ter uma crise econômica na Ásia, vide o que aconteceu quando Ormuz foi fechado pelo Irã, as Filipinas decretaram estado de emergência e quase todo petróleo que passa por aí vai para o Japão e Coreia do Sul, que foram bastante prejudicados", conclui.

Na geopolítica, a avaliação de cenários e conjunturas são cruciais entre as nações para que haja alguma margem de manobra para que, no caso de algumas situações mais drásticas, se concretizem e esse contexto seja propício para que surjam acordos de cessar-fogo entre países beligerantes, no entanto, isso não significa que os mesmos serão.