Dia da Terra: turismo como instrumento de preservação
Entre avanços e retrocessos, o turismo de natureza surge como aliado estratégico da conservação no país mais biodiverso do planeta
O Brasil abriga seis biomas, a maior floresta tropical do planeta, a maior reserva de água doce do mundo e cerca de 20% de toda a biodiversidade conhecida. É, por qualquer métrica, o país mais importante do planeta para o equilíbrio do clima. É também o país onde, neste momento, 70 projetos de lei que ameaçam a proteção socioambiental tramitam no Congresso Nacional, segundo levantamento recente do Observatório do Clima.
É nesse campo de contradições que se decidirá o futuro e a capacidade do país em utilizar sua matriz verde para ajudar a liderar processos de descarbonização, energias renováveis, preservação e regeneração do planeta.
A Semana da Terra, celebrada desde 1970, nos relembra que o planeta está sendo empurrado além dos seus limites, e que vivemos em uma década com aquecimento contínuo de atmosfera e dos oceanos. Apesar da queda do desmatamento em 2025, a Amazônia Legal viu a degradação florestal aumentar em 482% em 2025, impulsionada por queimadas e exploração madeireira, enquanto o avanço de propostas legislativas segue pressionando áreas protegidas.
O avanço de medidas parlamentares como o chamado “PL da Devastação”, aprovado em 2025 e que flexibilizou o licenciamento ambiental, pode reduzir centenas de milhares de hectares de áreas protegidas. Esse cenário ocorre enquanto o Brasil ainda lidera a agenda climática global após a COP30, mantendo a presidência das negociações até novembro de 2026 sob forte escrutínio internacional.
“A preservação é muito mais do que uma pauta ambiental, e tem se mostrado, com urgência, como uma estratégia econômica viável para um país cuja riqueza real está viva em suas Unidades de Conservação, rios, fauna e flora. E entendemos que o ecoturismo é essencial nesse processo de conscientização e preparação para o futuro”, afirma Fernanda Dornelles, vice-presidente da Abeta — Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura.
O contraste expõe um cenário em que ganhos pontuais convivem com riscos estruturais, e reforça a urgência de transformar conservação em valor econômico, abrindo espaço para atividades como o turismo de natureza ganharem protagonismo.
Mais do que cifras, o turismo de natureza cumpre um papel que leis isoladas não conseguem, ao fortalecer o ecoturismo como ferramenta de valorização territorial, geração de renda e enfrentamento da crise climática.
Expansão acelerada
Os números confirmam o que empresas do setor já vivem na prática. Em 2024, as áreas protegidas brasileiras bateram recorde histórico de visitação, recebendo 25,5 milhões de turistas.
O ecoturismo cresce no país a uma taxa média de 30% ao ano, acima da média mundial, segundo dados do mesmo ano da pesquisa Ecoar realizada pelo Sebrae em parceria com o Ministério do Turismo e com a Abeta. Os números mostram que o segmento já representa 60% do faturamento do setor turístico nacional e é oferecido por 65,9% das empresas da indústria de viagens.
Dados do Ministério do Turismo indicam aumento na demanda por meios de transporte com menor pegada de carbono, meios de hospedagem com práticas ambientais estruturadas e experiências turísticas conectados à preservação de ecossistemas e à valorização cultural local, refletindo uma tendência de um movimento global de maior conscientização ambiental.
“Quando bem estruturado, o turismo de natureza conecta conservação e desenvolvimento de forma concreta, gerando renda, valorizando comunidades locais e criando incentivos diretos para manter áreas de preservação intactas. É uma atividade que transforma ativos naturais em oportunidades sustentáveis de longo prazo”, afirma Luiz Vigna, diretor-executivo da Abeta.
Empresas do setor turístico já lidam com riscos climáticos mais evidentes, custos operacionais associados a eventos extremos e uma demanda crescente de investimentos, mas exemplos de ecoturismo em todo o território nacional mostram que é possível criar uma cadeia produtiva que depende diretamente da preservação para prosperar.
Cerrado com propósito
No Jalapão, o Cerrado mais espetacular do Brasil virou produto de consumo rápido: chegar, fotografar o fervedouro, partir. A Praia Rica Expedições nasceu como uma recusa a esse modelo. Com grupos reduzidos, guias nativos e roteiros que trocam o carro por caminhadas no Cerrado, a operadora tocantinense redesenhou a lógica da viagem. Em 2025, a Expedição Meu Jalapão foi eleita pela Embratur e pelo Sebrae uma das 100 experiências mais qualificadas do Brasil para o turista internacional, avaliada por autenticidade, qualidade e sustentabilidade. Virou experiência oficial do Brasil.
Os roteiros integram farinhadas, produção de rapadura e manifestações culturais tradicionais e não são apenas uma atração folclórica, mas um exemplo para que o viajante entenda a biodiversidade, a memória e a comunidade viva do território. "O destino deixa de ser apenas um lugar bonito e passa a ser entendido como um espaço que precisa ser preservado", explica a proprietária, July da Costa.
As práticas ambientais seguem a mesma lógica. A Praia Rica tornou-se a primeira operação de turismo do Tocantins a estruturar uma atuação carbono neutro, compensando mais de 14 toneladas de emissões em 2025. Como signatária da Declaração de Glasgow para a Ação Climática no Turismo, ao lado da ONU, assumiu o compromisso de zerar emissões até 2050. Os fervedouros noturnos, prática aceita pelo mercado, mas incompatível com o que a empresa entende por turismo responsável, foram abolidos do roteiro por conta do impacto sobre a fauna.
70 mil razões para preservar
Em Alta Floresta, no coração do Mato Grosso, havia pasto onde hoje há floresta. A Fazenda Anacã passou anos revertendo o que a pecuária havia destruído: em cerca de 290 hectares, foram plantadas 70 mil árvores de espécies nativas. Em 2024, o território conquistou oficialmente o título de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) — uma unidade de conservação criada voluntariamente pelo próprio proprietário, com caráter de preservação permanente inscrito na matrícula do imóvel.
Para Fernão Prado, idealizador do projeto, a escolha nunca foi entre produzir e preservar. "Entendemos que nossa responsabilidade, embora sejamos uma empresa de turismo, é trabalhar e vivenciar a governança do meio ambiente no nosso território", diz. O turismo é o veículo. A conservação é a missão.
A fazenda mantém parcerias ativas com prefeituras, secretarias e órgãos ambientais da região — e transforma cada visita em aula. A meta não é que o hóspede vá embora satisfeito, mas que vá embora diferente. "Fazemos com que o cliente entenda a importância de uma empresa de turismo com essa frente de proteção. E que ele leve essa consciência para dentro da sua própria empresa — mesmo que ela seja de outro setor."
Um legado de 25 hectares
Em Prudentópolis, no interior do Paraná, Márcio Miranda transformou 25 hectares — boa parte deles cultivados no sistema de corte e queima — em Reserva Particular do Patrimônio Natural. Desde 2007, o Ninho do Corvo é uma unidade de conservação oficial, com mata protegida de forma permanente.
"É uma pequena parcela, mas está protegida. É um legado", diz Miranda. A pousada ecológica produz praticamente 100% de sua energia com painéis solares, faz o uso consciente dos recursos hídricos, gerencia os resíduos com destinação correta e compra insumos de produtores da região. Todos os funcionários, colaboradores e guias são moradores do entorno e remunerados justamente. "A ideia é fortalecer a economia da ponta, a economia de base. Isso também é preservar." Oito cachoeiras atravessam a reserva, algumas abertas à visitação, outras acessíveis apenas com guia. A natureza intacta é um produto que gera valor justamente por se manter preservado, tornando a conservação parte central do negócio.
Em 2021, o Ninho do Corvo recebeu o Selo Qualidade no Turismo do Paraná na categoria Ouro, sendo o único empreendimento da região a conquistar a certificação.