INTERNACIONAL

Com defesa ultrapassada e OTAN rachada, Alemanha quer aumentar número de soldados e reservistas

Por Sputnik Brasil Publicado em 24/04/2026 às 18:15
© AP Photo / Gero Breloer

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas comentam novo ato militar da Alemanha, que obriga homens de 17 a 45 anos a pedirem autorização das Forças Armadas para ficar fora do país por mais de três meses.

A Alemanha aprovou no final do ano passado uma lei para a retomada do alistamento militar obrigatório para homens a partir dos 18 anos. Os jovens alemães terão que fazer uma inscrição on-line e aguardar o chamado para exames médicos, embora o serviço militar ainda seja voluntário.

No entanto, um trecho da Lei de Modernização do Serviço Militar chamou a atenção somente recentemente na imprensa da Alemanha. Dentre os artigos, há um trecho que exige aos alemães entre 17 a 45 anos peçam autorização às Forças Armadas do país para viagens ao exterior que durem mais de 90 dias.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a Alemanha busca recuperar prestígio militar após décadas ignorando questões de defesa. O atual momento de fragilidade política da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) também influenciou as novas leis alemãs.

Robson Cunha Rael, doutor em relações internacionais e pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), conta que as medidas dos políticos da Alemanha têm relação direta com uma falta de confiança na OTAN.

"Já há algum tempo a Alemanha busca reforçar suas Forças Armadas e um dos motivos realmente é ligado ao governo Trump, aos EUA, que não exercem mais o papel de provedor de segurança para os europeus. Donald Trump reiteradamente critica a OTAN, falando que os EUA gastam demais com a aliança militar e não têm retorno."

Rael explica que as novas medidas militares alemãs também têm como objetivo dissuadir o inimigo de tomar uma ação. E quem seria esse inimigo? Segundo o especialista, de acordo com discursos do ex-chanceler Olaf Scholz, a Rússia.

"Há relações diplomáticas entre a Alemanha e a Rússia. [...] Os canais diplomáticos estão abertos. Como [o assessor-chefe de Lula] Celso Amorim falou, os europeus têm consciência ou precisam adquirir consciência de que a Rússia não quer conquistar a Europa."

À época em que a Lei de Modernização do Serviço Militar foi aprovada, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, reiterou que a Rússia não entrará em uma guerra com a Europa, mas que o país está pronto para caso a liderança europeia declare guerra e parta para o ataque.

"Não vamos entrar em guerra com a Europa, já disse isso muitas vezes. Mas, se a Europa, de repente, decidir começar uma guerra contra nós e atacar, já estamos prontos."

Kai Michael Kenkel, professor e diretor do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), destaca que a Alemanha, conhecida por ser a maior economia da Europa, tem uma força militar aquém de seu poder financeiro, assim como do tamanho de sua população.

"Desde o fim da Guerra Fria, quando a gente olha para o investimento, a Alemanha não chegou nem perto do seu potencial de investimento militar. Ou seja, comparada com seu tamanho, com seu poder econômico, ela estava relativamente fraca militarmente."

Kenkel ressalta que a obrigatoriedade de comunicar as Forças Armadas da Alemanha sobre eventuais saídas é uma lei de defesa que já existe há mais de 70 anos, mas não é executada. E, assim como Rael, o especialista entende que a necessidade de aumentar o efetivo militar se dá pela cisão dentro da OTAN.

"A Europa está acordando para uma situação na qual ela vai, pela primeira vez em 80 anos, ter que cuidar da própria defesa, sozinha. Ela estava vivendo abaixo do guarda-chuva americano durante muito tempo e agora não tem mais isso."

Alemães não querem guerra

Ambos os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil ressaltam que o povo da Alemanha não tem intenção de lutar pelo país em uma eventual guerra.

Para Rael, há uma resistência na sociedade alemã ao militarismo por conta dos traumas adquiridos na Segunda Guerra Mundial, quando o então chefe do país, Adolf Hitler, ordenou o genocídio de povos em parte do leste europeu.

"Além do genocídio contra o povo judeu, houve também genocídio contra o povo eslavo. Recentemente, a Rússia mencionou que a União Soviética sofreu genocídio. Era multinacional."

Já Kenkel, explica que, periodicamente, os institutos de pesquisa realizam sondagens sobre a intenção de um povo defender o seu país. Dentre os europeus, os alemães sempre costumam ficar nos últimos lugares, conta o analista.

"Essa questão de você ter que fazer esse tipo de sacrifício, ter que fazer serviço militar, ter que enfrentar uma situação de conflito aberto... Isso é uma coisa que, ao longo dos anos, ficou muito longe da consciência, da mente dos alemães."