EDUCAÇÃO

Edtechs usam IA para transformar inclusão em inteligência de gestão

Por Katiuscia Zanatta Publicado em 27/04/2026 às 11:09
Divulgação

Com o avanço das matrículas de alunos neurodivergentes em classes comuns, startups de educação passam a mirar uma dor historicamente negligenciada: como ajudar escolas e redes de ensino a acompanhar inclusão com mais estratégia, continuidade e capacidade de decisão.

A inclusão escolar deixou de ser apenas uma pauta pedagógica e passou a exigir também novas respostas de gestão. Com 2,5 milhões de matrículas na educação especial em 2025, sendo 1,2 milhão de estudantes autistas, e com 93,5% dessas matrículas já em classes comuns, escolas e redes de ensino enfrentam uma pressão crescente: como sustentar, no cotidiano, o acompanhamento de alunos com diferentes perfis neurodivergentes, apoiar professores e tomar decisões mais consistentes diante de salas de aula cada vez mais heterogêneas.

Esse cenário começa a abrir espaço para uma nova frente dentro do mercado de educação: soluções tecnológicas voltadas não apenas ao ensino, mas à gestão da inclusão escolar. Em vez de operar só como apoio a planejamento de aula ou produção de conteúdo, essas plataformas começam a atacar uma dor menos visível e mais estrutural: a dificuldade de transformar inclusão em processo acompanhável, organizado e sustentável ao longo do tempo.

Entre as empresas brasileiras que se posicionam nesse movimento está a Kolo Inclusão, ecossistema de tecnologia especializada voltado à inclusão e ao neurodesenvolvimento. Na frente institucional, a Kolo Escola foi estruturada para apoiar professoras, coordenação, direção e redes de ensino com estratégias pedagógicas personalizadas, registros de acompanhamento, leitura de evolução dos alunos e geração de indicadores estratégicos relacionados à inclusão. A proposta é combinar método pedagógico com inteligência artificial para transformar observações dispersas em acompanhamento contínuo e apoio à tomada de decisão.

Idealizada pela neuropsicóloga Karina Koloszuk, fundadora da Kolo Inclusão e cofundadora da Clínica Nathuris, a solução parte de uma premissa simples: a inclusão avançou mais rápido do que a estrutura prática disponível para sustentá-la. “Hoje, a escola não precisa apenas incluir. Precisa acompanhar, registrar, interpretar e decidir melhor. A tecnologia entra para apoiar esse processo, gerar mais clareza para a professora e também entregar visão estratégica para a gestão”, afirma.

Alinhada à BNCC e aos princípios do DUA (Desenho Universal da Aprendizagem), a metodologia da Kolo foi desenhada para ajudar a escola a agir com mais personalização diante de estudantes com diferentes perfis, como autismo, TDAH, dislexia, altas habilidades e outros sinais de alerta no neurodesenvolvimento. A lógica não é substituir o professor, mas ampliar sua capacidade de observação, organização e resposta diante da diversidade da turma.

Na prática, um dos diferenciais centrais da plataforma está no uso de inteligência artificial para consolidar registros pedagógicos, histórico de intervenções e respostas dos estudantes ao longo do tempo. Isso permite acompanhar melhor a evolução de cada aluno e também da turma como um todo, além de abrir caminho para a geração de KPIs estratégicos de inclusão, úteis para diretores escolares, mantenedoras e secretarias municipais de Educação acompanharem barreiras recorrentes, necessidades de suporte, pontos de atenção e efetividade das estratégias adotadas.

O movimento acontece em paralelo a uma ampliação recente das políticas públicas voltadas à inclusão. Segundo o MEC, entre 2023 e 2025 foram registradas 114 mil matrículas de profissionais da educação em cursos de formação continuada, com R$ 83,6 milhões investidos em 230 cursos. No mesmo período, houve expansão do AEE e reforço à infraestrutura das escolas, incluindo o reajuste do repasse por unidade escolar de R$ 20 mil para R$ 30 mil no âmbito do PDDE – Salas de Recursos Multifuncionais.

Para startups que entram nesse campo, a oportunidade está menos em vender tecnologia como promessa abstrata e mais em responder a uma mudança concreta da educação brasileira: a inclusão já está dentro da sala de aula, mas sua sustentação ainda depende, em grande medida, de processos frágeis, registros dispersos e decisões baseadas em percepção isolada. É nesse ponto que a gestão da inclusão começa a se consolidar como uma nova fronteira para inovação educacional.

No caso da Kolo, o posicionamento vai além da escola. O ecossistema também inclui uma frente voltada às famílias, com estratégias práticas para o cotidiano relacionadas a foco, sono, questões sensoriais, seletividade alimentar, regulação e comunicação. A tese por trás desse desenho é que a inclusão não se sustenta apenas com uma boa ferramenta para o professor, mas com apoio coordenado aos diferentes adultos que cercam a criança.

Se antes a inovação em educação se concentrava em conteúdo, plataformas de ensino e ganho de eficiência acadêmica, agora uma nova camada começa a ganhar relevância: a capacidade de transformar inclusão em inteligência de acompanhamento, articulação entre escola e família e gestão orientada por evidências. Para um sistema educacional cada vez mais pressionado pela diversidade da sala de aula, esse pode se tornar um dos próximos campos estratégicos do setor.