Análise: EUA estão 'transferindo a responsabilidade' sobre as drogas para outros países
Os EUA apresentaram a Estratégia Nacional de Controle de Drogas para 2026, que dá ênfase especial ao México, país que, na perspectiva de Washington, é amplamente responsável pelo consumo generalizado de opioides e outras drogas entre a população americana. No entanto, especialistas disseram à Sputnik que o documento carece de abordagem preventiva.
A estratégia apresentada nos últimos dias pelo governo de Donald Trump foi aplaudida pelo governo mexicano, que destacou que, pela primeira vez, os EUA reconhecem um grave problema de saúde pública relacionado ao uso de drogas na sociedade americana. O ministro das Relações Exteriores do México, Roberto Velasco Álvarez, também observou que a cooperação e a coordenação com o México são fundamentais para essa estratégia.
Contudo, o uso generalizado de drogas nos EUA é um problema antigo. E, embora, segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, as mortes por overdose tenham diminuído em comparação com anos anteriores, registrando cerca de 71 mil, o número de óbitos por uso de drogas permanece alto.
Dados do CDC mostram que, em 1999, os EUA registraram cerca de 20 mil mortes por overdose, um número que, em menos de 20 anos, cresceu exponencialmente, atingindo um pico de mais de 105 mil mortes em 2022.
Palavras que não se sustentam diante dos fatos
O consultor de segurança David Saucedo afirma, em entrevista à Sputnik, que, por décadas, os EUA têm sido negligentes no combate ao uso de drogas em sua população e, segundo ele, a nova estratégia do governo Trump não parece ser uma exceção.
"O documento de fato menciona a questão do uso de drogas ilícitas nos EUA, mas isso é apenas na narrativa: na realidade, não há alocação orçamentária, por exemplo, para melhorar os sistemas de saúde e estabelecer a compra em massa de medicamentos que reduzam o risco de morte por fentanil", explica o analista.
"Não existem métricas de sucesso. Ano após ano, segundo dados do sistema de saúde americano, a base de consumo aumenta. Portanto, parece não haver uma estratégia nos EUA para conter o uso de drogas ilícitas", acrescenta.
Javier Oliva Posada, doutor em ciência política e especialista em segurança, concorda com essa visão e lembra que foi justamente essa omissão em relação à prevenção, à saúde pública e às políticas farmacêuticas que gerou a mais recente crise de drogas nos EUA, centrada no fentanil.
"A crise do fentanil começa com a facilidade com que os médicos prescrevem drogas para qualquer tipo de dor. É aí que o consumo começa a crescer exponencialmente. Não podemos esquecer disso; essa é a origem", recorda.
'Os EUA estão apenas aplicando pressão diplomática'
A nova Estratégia Nacional de Controle de Drogas para 2026 pode ser vista como uma continuação da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA apresentada por Washington no final do ano passado, já que também foca na América Latina e no "combate ao crime organizado", uma das principais promessas de campanha de Trump, destaca Oliva Posada.
"O documento tem 95 páginas e o México aparece 31 vezes. Desempenha um papel central. Claramente, tudo isso é uma continuação", observa o especialista, acrescentando que essa estratégia também poderia ser usada como argumento para os EUA adotarem uma postura ainda mais intervencionista em relação ao México.
A esse respeito, Saucedo enfatizou que a estratégia se concentra no uso problemático de uma única droga, o fentanil; no entanto, alertou que a raiz do problema não está no México.
"O fentanil é a droga ilícita em torno da qual gira quase toda essa estratégia [...]. Na realidade, o fentanil é um problema que se origina na China em termos de precursores químicos, e não vejo Washington solicitando a extradição de nenhum governador, policial ou militar chinês... porque não pode", afirmou o analista.
Por sua vez, o governo de Xi Jinping negou categoricamente que seu país esteja envolvido na fabricação ou no tráfico dessa substância e reafirmou repetidamente seu compromisso com o combate ao narcotráfico global.
"Os EUA não podem confrontar a China; em todo caso, o custo é maior. Mas eles podem confrontar o México", afirmou Saucedo.
México como a origem dos problemas dos EUA, segundo Trump
A tudo isso, acrescentou ele, existe uma aversão que pode até ser pessoal por parte de Washington e sua equipe mais próxima em relação ao México.
"Trump optou por ver o México como a origem de muitos dos problemas dos EUA, em vez de vê-lo como um parceiro comercial e um aliado hemisférico", destaca o especialista.
Segundo o especialista e consultor em questões de segurança nacional e internacional, a nova estratégia antidrogas de Washington carece de uma metodologia adequada para combater o crime organizado dentro de suas próprias fronteiras, bem como de um orçamento para saúde e segurança pública, que permanece no mínimo há uma década.
"Os EUA estão repassando o custo para países como o México e outros na América Latina. O México precisa fornecer seus recursos humanos, financeiros e materiais para combater o narcotráfico, mas de onde virá o investimento dos EUA? Em outras palavras, eles só exercem pressão diplomática, pressão militar e pressão sobre segurança, comércio e tarifas", afirmou.
Essa, segundo ele, é uma clara deficiência no recente documento apresentado pelo governo Trump. Embora mencione o contrabando de armas dos EUA para o México, que alimenta os próprios grupos de narcotráfico que Washington rotulou como terroristas, o documento não apresenta nenhuma ação concreta para lidar com o problema.
"Não há nenhuma proibição à aquisição, sobretudo de fuzis de assalto que sejam legalmente comprados novos nos Estados Unidos e transportados até a fronteira. Portanto, não vejo essa responsabilidade compartilhada por parte dos Estados Unidos", concluiu.
Por Sputinik Brasil