EXCLUSIVO | CRISE NO SISTEMA FINANCEIRO

Banco de Edir Macedo transfere carteira podre e oculta prejuízo

Digimais, instituição ligada ao bispo, usa fundos próprios para maquiar balanço e esconder perdas milionárias, segundo investigação.

Publicado em 18/05/2026 às 09:00
Edir Macedo

O banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo e em crise há mais de um ano, recorreu a uma manobra envolvendo fundos de investimentos para retirar de seu balanço perdas multimilionárias. Documentos obtidos pelo Estadão e análises detalhadas por especialistas mostram que o banco transferiu carteiras de financiamentos com inadimplência de centenas de milhões de reais para fóruns de suas projeções financeiras. Além disso, vendeu precatórios de difícil coleta à própria holding de Macedo, em uma operação que despertou a atenção dos auditores.

O Digimais é pouco conhecido do público, não possui agências físicas e atualmente não opera transações via Pix. Até 2020, era chamado Banco Renner, em referência à família fundadora das Lojas Renner. Edir Macedo tornou-se acionista em 2009 e, posteriormente, adquiriu o controle, promovendo uma mudança de nome. O foco principal da instituição não é o financiamento de veículos, com crescimento recente no segmento de crédito consignado.

Nas últimas semanas, a reportagem teve acesso a auditorias dos balanços do banco, processos judiciais, contratos e outros documentos que detalham a criação e utilização desses fundos de investimentos — dos quais o próprio Digimais é cotista. Fontes próximas à Igreja Universal, sob anonimato, dizem que os fundos vêm sendo usados ​​para mascarar graves problemas financeiros.

'Sinal vermelho'

Peritos e agentes do mercado financeiro consultados pelo Estadão classificaram algumas dessas operações como de “alto risco regulatório” e “sinal vermelho forte”. O jornal apurou ainda que a Polícia Federal investiga o banco por supostas fraudes. Procurados, tanto o Digimais quanto a Igreja Universal não se manifestaram.

Com essas operações, o banco declarou lucro de R$ 31 milhões ao final de 2025, omitindo pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos que deveriam impactar as quantidades o resultado financeiro da instituição.

O valor pode ser ainda maior: há um saldo total de R$ 3 bilhões em fundos que não puderam ser auditados devido à falta de acesso dos auditores a documentos comprobatórios. Esse montante corresponde a cerca de 75% do valor investido pelo banco em fundos de investimentos.

'Zé com Zé'

Um ponto que chama atenção é que os fundos possuem o próprio Digimais como cotista. Parte dessas operações, portanto, envolve o banco participante dos dois lados da transação — prática conhecida no mercado como “Zé com Zé”.

Com informações do jornal O Estado de S. Paulo.