RELAÇÕES EXTERIORES

Ida de Mauro Vieira à Ásia Central aponta diversificação de parcerias do Brasil, diz analista

Por Sputinik Brasil Publicado em 18/05/2026 às 11:39
© Divulgação/MRE

A recente ida do chanceler brasileiro ao Uzbequistão e ao Cazaquistão destaca a política externa brasileira de diversificar suas parcerias, visando novos mercados e diálogos políticos.

A visita acontece em um momento em que Brasília vem se aproximando comercialmente dos países da região e também da União Econômica Euroasiática (UEE).

Nesse sentido, Leonardo Nascimento, doutorando em relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e membro do Observatório Rússia-América Latina (Ruslat), em entrevista à Sputnik Brasil, ressalta que esse tipo de parceria com as nações centro-asiáticas é benéfico aos interesses comerciais brasileiros por dar acesso a um grande público.

"Quando a gente fala de cadeia global de valor, esses países [da Ásia Central] podem ser fornecedores de materiais de extrema importância. Vendo pela perspectiva brasileira, isso é muito relevante porque o que a gente observa é a mudança do eixo do capitalismo global. O Ocidente perde o protagonismo, e é importante que o Brasil esteja próximo dos países que vão usufruir dessa nova posição da geoeconomia", disse.

Recentemente, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil destacou a abertura de mercado para grãos secos de destilaria de milho para a UEE [bloco comercial composto por Armênia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão e Rússia]. Segundo a pasta, o bloco já importou mais de US$ 1,4 bilhão em produtos agropecuários brasileiros em 2025, principalmente café, proteínas animais e fumo.

Para Nascimento, isso demonstra que, no cenário internacional com tensões geopolíticas que geram conflitos e a emergência de um mundo multipolar, a diversificação de parceiros e aberturas comerciais se torna ainda mais necessária.

"Os países da Ásia Central também buscam diversificar suas parcerias. Por exemplo, o Cazaquistão tem tido um crescimento econômico acelerado e tem conseguido equilibrar a influência chinesa, estadunidense e turca. Pode ser um ganho mútuo [com o Brasil] tendo os princípios de multipolaridade", comenta.

Mercosul ganharia ao se integrar com a Eurásia

Uma articulação mais estreita entre Mercosul e UEE é vista positivamente pelo analista. No entanto, as fragilidades e as divisões políticas e ideológicas presentes dentro do bloco, que fazem Brasil e Uruguai estarem em posições divergentes dos demais membros, impedem essa expansão no momento.

"Brasil e Uruguai defendem um outro tipo de interação internacional [dentro do Mercosul] e, por questões ideológicas, há falta de consenso para se adotar uma estratégia coesa. Apesar disso, seria muito positivo para o Mercosul uma aproximação com a UEE porque diversificar e manter relações entre blocos é muito importante e reforça o multilateralismo", discorre.

Devido à falta de consenso interno no agrupamento sul-americano, o Planalto passou a agir de forma unilateral para preservar seus interesses. Como aponta Nascimento, além da aproximação com os países que integram a UEE na Ásia Central, o Planalto também estreitou laços com o Sudeste Asiático por meio da Asean, bloco cuja última cúpula, realizada em 2025, contou, inclusive, com a presença do presidente Lula.

"À medida que a gente avança para uma ordem multipolar, que é um cenário mais complexo, a relação de dependência com qualquer parceiro pode ser perigosa. A movimentação do Brasil tem sido interessante em expandir seus mercados. Lula foi convidado para participar na Ásia, o que demonstra a aproximação com o continente", observa.

Brasil busca sua autonomia entre as potências

Outro ponto de atenção enfatizado pelo analista é que, no atual cenário internacional, o Brasil se torna alvo da cobiça de potências devido à sua posição estratégica e à abundância de recursos, como no caso das terras raras. Com isso, ao buscar alternativas diversas como a Ásia Central, Brasília visa reduzir sua dependência criando novas rotas de parcerias estratégicas.

"Essa postura do Brasil com a Ásia Central também indica outra questão em jogo. Ao mesmo tempo que o Brasil pode ser considerado um ponto de disputa por grandes potências, o próprio país também tenta uma solução autônoma. A visita do chanceler Mauro Vieira também significa que o Brasil quer ser um ator soberano e autônomo nesse mundo multipolar que emerge", conclui.

O mundo multipolar exige dos Estados cada vez mais capacidade de diálogo e cooperação entre si, à medida que polos hegemônicos ocidentais perdem força e outras economias emergem e se fortalecem, principalmente no eixo euroasiático.


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