Associações de moradores criticam pedido de aéreas para operar em Congonhas após as 23h
Entidades alertam para riscos à qualidade de vida e ao direito ao descanso diante de proposta de ampliação excepcional do horário de funcionamento do aeroporto.
Um grupo formado por 20 associações de moradores de bairros da região do Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, manifestou críticas ao pedido feito por companhias aéreas à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para autorizar, em situações excepcionais, pousos e decolagens após as 23h no terminal. Atualmente, o aeroporto opera das 6h às 23h, e a sugestão é permitir até uma hora extra de funcionamento.
“Esse limite não é casual”, afirma o grupo em nota conjunta. “Ele resulta de histórico antigo de reivindicações da população do entorno, de preocupação ambiental e de reconhecimento institucional de que o período noturno deve ser preservado para descanso da população. O funcionamento após as 23h já pode ocorrer em hipóteses absolutamente excepcionais, devidamente justificadas e autorizadas. Não há necessidade de criação de nova flexibilização normativa”, completa o texto.
As associações temem que situações operacionais das companhias acabem se tornando justificativa permanente para ampliar o horário do aeroporto. As entidades citam decisões judiciais que determinam o fechamento do terminal durante a madrugada. “O direito ao descanso, ao sono e à qualidade de vida da população paulistana deve prevalecer sobre conveniências operacionais do setor aéreo”, reforça a nota.
Segundo os moradores, a região já convive diariamente com elevados níveis de ruído aeronáutico, fluxo intenso de operações e impactos urbanos contínuos. “Ampliar ou flexibilizar operações noturnas representa agravamento direto da qualidade de vida de milhares de moradores”, alertam.
Pedido de flexibilização até meia-noite
O pedido para ampliação do horário em situações excepcionais foi encaminhado à Anac no início de maio pela Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear), que representa as principais companhias do setor. A justificativa é que, diante de problemas como mau tempo, panes ou incidentes, todo o sistema aéreo sofre atrasos e cancelamentos. A possibilidade de uma hora adicional ajudaria a amenizar esses impactos.
Em resposta, a Anac informou que “o tema foi encaminhado para a diretoria colegiada e está sendo analisado”. A Abear representa empresas como Latam, Gol e Azul. Segundo as companhias, a medida não ampliaria de forma permanente a capacidade operacional do aeroporto, mas permitiria concluir operações já iniciadas em situações excepcionais, evitando efeitos em cadeia na malha aérea nacional.
A proposta das empresas inclui critérios para a aplicação do horário flexível, como o impacto sobre mais de 600 passageiros. Segundo a Aena, administradora do aeroporto, Congonhas recebe cerca de 75 mil passageiros por dia. A concessionária ressalta que prorrogações de horário ocorrem apenas em situações excepcionais, como eventos meteorológicos adversos.
No dia 9 de abril, conforme noticiado pelo Estadão, Congonhas foi autorizado a operar até meia-noite devido a uma pane que suspendeu voos pela manhã. A decisão foi tomada após solicitação das companhias, visando reduzir os impactos na malha aérea. A pane teria sido causada por um incêndio no prédio do sistema de controle operacional.
O aeroporto de Congonhas tem restrições para operações noturnas desde a década de 1970, devido ao impacto sonoro na região. As regras atuais, que determinam o fim das operações às 23h, foram definidas pela Anac em 2008 para mitigar a poluição sonora, já que o terminal está localizado em área densamente habitada.
A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), informou que ainda não foi oficialmente comunicada sobre a proposta. Caso haja formalização, o pedido será analisado pelos órgãos técnicos, com base na legislação e no interesse público, segundo a gestão municipal.