BRICS deveria trabalhar com perspectiva de longo prazo de uma aliança militar, diz jurista
Em entrevista ao Mundioka, especialistas comentaram a reunião dos chanceleres do grupo, na Índia, em preparação para a cúpula deste ano, que será realizada em setembro em Nova Deli.
Os chanceleres dos países que formam o BRICS se reuniram no final da última semana em Nova Deli, na Índia, em preparação para a cúpula do grupo que será realizada em setembro na capital indiana.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores da Rússia, representado na reunião pelo ministro Sergei Lavrov, os chanceleres presentes trocaram visões sobre as pressões atuais no mundo e comentaram a necessidade de fortalecer o multilateralismo.
A ONU, principal instituição do multilateralismo internacional, também fez parte das discussões dos ministros, que reafirmaram a necessidade da Organização das Nações Unidas coordenarem a paz ao redor do mundo, bem como o desenvolvimento sustentável.
O grupo também expressou a necessidade de reformas do sistema multilateral e de suas organizações, como a própria ONU, mas também a Organização Mundial do Comércio (OMC) e as instituições de Bretton Woods.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicaram que o BRICS se posiciona como uma alternativa aos organismos tradicionais e estabelecidos. Todavia, para eles, o grupo deveria repensar expansões contínuas e buscar uma sinergia de propostas e ideias.
Valdir Bezerra, mestre em relações internacionais pela Universidade de São Petersburgo, e escritor e organizador da obra "80 Anos da Vitória na Grande Guerra Patriótica", acredita que o grande debate entre os países do BRICS ao longo dos próximos meses será a reconfiguração mundial de poder e as pressões sobre o próprio grupo.
"O ataque que vem ocorrendo ao Irã, as guerras tarifárias feitas pela administração [de Donald] Trump, as pressões sobre a China, no final das contas, são um ataque aos BRICS por parte de uma hegemonia, que, segundo alguns analistas, é uma hegemonia que está decadente."
Bezerra destaca que o BRICS defende "o respeito a uma ordem" que, no entanto, "parece não existir mais porque o próprio Ocidente acabou desconsiderando essa ordem". O grupo defende o multilateralismo, o respeito mútuo aos interesses de segurança e, agora, a reforma das organizações internacionais conforme o mundo atual.
"O mundo mudou muito desde 1945. Então, você ter um Conselho de Segurança configurado da forma como está, com o poder de veto na mão de apenas cinco atores, acaba sendo injusto diante do contexto atual, em que mais nações vêm ganhando importância, em que mais países podem pleitear também a participação na defesa da paz. Você tem instituições internacionais que estão pouco representativas também no seu conselho diretivo."
Hugo Albuquerque, jurista, analista geopolítico e editor da Autonomia Literária, destaca que o BRICS possui potencial econômico, militar, energético e humano para se tornar um gigante diplomático entre os organismos internacionais. Para chegar lá, no entanto, o especialista entende ser necessário encontrar uma maior "vontade política" e alinhamento entre seus integrantes.
"Não adianta o bloco fazer uma reunião e incluir mais países. É preciso criar determinados elementos comuns e trabalhar, inclusive, com a perspectiva de longo prazo de uma aliança militar, o que não tem no BRICS, mas tem na Organização para a Cooperação de Xangai (OCX)."
Para Albuquerque, a diplomacia internacional vive um momento de tensão ocasionada pelo Ocidente, que não consegue avançar com suas pautas, sejam políticas ou militares. Se outrora os Estados Unidos tinham liberdade para operar no golfo Pérsico, hoje precisam lidar com o Irã, membro do BRICS, controlando o estreito de Ormuz.
"Os americanos não vão poder manter uma presença bélica no Oriente Médio como era antigamente. Isso é um golpe muito duro na geopolítica americana, que se ampara ainda no petrodólar, e o petrodólar era garantido pela presença americana na Península Arábica e também por uma suposta hegemonia naval que deveria funcionar em relação ao Golfo."
Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM-SP, acredita que os países do BRICS enxergam de maneira diferente a entrada de outras nações. A China, por exemplo, entende que convites podem ser utilizados como forma de ampliar atuação e influência, enquanto Brasil e Índia são mais reticentes a expansões pelo caráter de decisões unânimes obrigatórias do bloco.
"O ideal seria reformar as organizações internacionais que hoje já existem para que essas organizações tenham mais capacidade de ação e, com isso, preservar s BRICS um grupo menor, com maior agilidade decisória e com mais capacidade também de atuação", opina.
Desdolarização é discussão central
Conforme dito por Holzhacker, alguns países do grupo estão mais preocupados em acelerar a desdolarização das trocas comerciais, por exemplo, do que na reforma do Conselho de Segurança da ONU. O uso de moedas locais, para a especialista, pode ser um dos assuntos mais discutidos na cúpula de setembro.
"Reformar o que hoje existe das organizações internacionais sempre entra na agenda, mas não acho que seja um tema central para a Rússia nem para a China nesse momento. Então não deve ter um foco como outros temas, como a desdolarização pode ter, porque aí é um interesse russo, brasileiro, chinês..."
Bezerra destaca que 90% do comércio realizado entre China e Rússia é feito por meio de yuan e rublo, suas respectivas moedas, enquanto Índia e Rússia têm cerca de 70% das trocas comerciais feitas em moedas alternativas. Refinarias indianas, por sua vez, utilizam o dirham e o yuan em leilões de barris de petróleo.
"Esse é um processo que ameaça um dos principais pilares internacionais da hegemonia estadunidense, que é a predominância da sua moeda, do dólar, desde o final da Segunda Guerra Mundial, como principal meio de troca. É até por isso que esses ataques isolados à Venezuela, que era um candidato a entrar no BRICS, ao Irã, que é um membro do BRICS, a pressão comercial sobre a China, para diminuir o superávit comercial chinês, a pressão sobre o Brasil, a Índia, acabam sendo uma pressão sobre o BRICS."
Albuquerque é enfático ao declarar que, nos últimos anos, os Estados Unidos usam o dólar como um mecanismo para exercer uma suposta hegemonia. Na visão do especialista, foi um erro de Washington usar sua moeda como uma arma de ameaça.
"Está muito claro que, com essa política de sanções e tudo mais, sem uma integração monetária direta entre os países do Sul Global, você tem uma vulnerabilidade muito grande ao sabor do momento da política americana, que se tornou imprevisível. E é claro que, desde Trump 1, passando por Biden e agora Trump 2, fica muito claro que os Estados Unidos querem ir até o limite para manter a sua hegemonia global."
Por Sputinik Brasil