1ª mulher trans a passar por redesignação sexual no Brasil morre aos 80 anos
Waldirene Nogueira, referência no movimento trans, faleceu em Ubatuba; trajetória marcou avanços e enfrentou perseguições históricas
Waldirene Nogueira , reconhecida como a primeira mulher trans a realizar uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil, faleceu na terça-feira, 19, aos 80 anos, em decorrência de insuficiências respiratórias agudas. Ela residia em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, ao lado de um irmão.
O Velório de Waldirene acontece nesta quarta-feira, 20, em Lins, interior paulista, sua cidade natal. A cerimônia acontece no Memorial Santa Izabel, a partir das 8h, e o sepultamento está marcado para as 17h, no Cemitério da Saudade, também em Lins.
Em nota, o Núcleo Trans da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que homenageou Waldirene no final do ano passado, lamentou sua morte. “Ao expressar suas condolências a familiares, amigos e a toda a comunidade trans brasileira, este Núcleo se une ao luto coletivo de um movimento que muito lhe deve – e que carrega, em sua própria existência, uma marca indelével de sua coragem”, destacou a instituição.
Nascida em 1945, em Lins, Waldirene passou pela cirurgia de redesignação sexual em 1971, realizada pelo barco Roberto Farina. “Ela fez o aparelho estatal em toda a sua brutalidade: a perseguição judicial do Ministério Público, os exames compulsórios do IML, a violência simbólica de ser chamada de 'monstro', 'prostituta' e 'doente mental' pelas próprias instituições que deveriam garantir a dignidade”, ressaltou o comunicado da Unifesp. “Tudo isso em plena ditadura militar, sem redes de apoio organizadas, sem legislação protetiva, sem movimento social estruturado.”
O médico Roberto Farina foi denunciado por um promotor após apresentar o caso de Waldirene em um congresso de urologia. Chegou a ser condenado, em primeira instância, a dois anos de prisão por lesão corporal gravíssima, mesmo a cirurgia tendo sido realizada a pedido do paciente. Em 1979, Farina foi absolvido, e o caso tornou-se um marco na história jurídica e médica do país.
Na época, o procedimento foi enquadrado pelo artigo 129 do Código Penal, que previa penas de três meses a doze anos por violência contra a integridade física. Apenas em 1997 o Conselho Federal de Medicina aprovou a resolução nº 1.482, autorizando que a mudança de sexo não constitui crime.
A perseguição institucional contra Waldirene se estendeu por décadas. Seu nome de nascimento, Waldir, apareceu em documentos oficiais até 2010. Somente em 2011 foi emitido o novo RG. "Waldirene carregou esse fardo involuntariamente, transformado em objeto de disputa judicial quando desejava apenas viver. E mesmo assim, como ela própria disse décadas depois: 'Eu fui pioneira. Segurança bandeira até para quem não me conhece'", concluiu o núcleo da Unifesp.