Analista aponta assimetria entre encontros de Lula e Flávio Bolsonaro com Trump
Para Monica Hirst, visita do senador ao Salão Oval sinaliza manutenção de vínculo ideológico com o bolsonarismo
A agenda do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no último mês, teve a presença de brasileiros em momentos distintos. De um lado, houve a recepção protocolar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De outro, a visita do senador Flávio Bolsonaro ao Salão Oval e o encontro com o chefe da Casa Branca. Embora os gestos possam parecer semelhantes, a leitura da analista Monica Hirst é de que eles são assimétricos.
Pesquisadora-colaboradora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), Hirst avalia que o movimento de Trump não foi pragmático. Segundo ela, se fosse, o presidente norte-americano “não teria recebido o potencial candidato opositor ao chefe de Estado que havia sido recebido dez dias antes”.
Para a analista, a decisão de receber Flávio Bolsonaro naquele momento indica o compromisso de “não deixar para trás” uma ligação ideológica construída anteriormente com o bolsonarismo. “Se não deixa para trás, coloca para frente”, afirmou.
Já o encontro entre os presidentes, segundo Hirst, não foi interpretado como uma vitória para o governo brasileiro, mas como “uma não derrota”.
A pesquisadora também destaca que o olhar dos Estados Unidos para o Brasil não é distante ao longo da história, assim como a influência norte-americana na política nacional.
“Não vai ser a primeira vez que nós vamos ter os EUA como um fator de ingerência nas eleições presidenciais recentes no Brasil. Nas últimas eleições, onde foi vitorioso a opção liderada por Lula, o apoio do governo americano, do presidente democrata John Biden, foi muito importante. Não para definir as eleições, mas para dar legitimidade aos resultados dela”, disse Hirst.
Segundo ela, a atuação de Washington tende a seguir presente. “Um detalhe que não é menor é a nomeação do novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, que era uma carta que estava sendo segurada até muito pouco tempo. Inclusive, a informação que havia era que essa nomeação só ia vir depois das eleições, veio antes”, avaliou. Para Hirst, o gesto representa uma sinalização da presença dos Estados Unidos no Brasil durante o período eleitoral.
Governo dos EUA não fala só com a voz de Trump
De acordo com a analista, “o que Trump faz ou deixa de fazer” não deve ser o único critério para medir as relações com a Casa Branca. Ela afirma que, no Salão Oval, a voz do secretário de Estado Marco Rubio “é muito estridente”.
Como exemplo, Hirst cita a articulação intermediada por Rubio para levar um senador brasileiro a se encontrar com o presidente de uma nação estrangeira. Para ela, essa postura está alinhada ao modo como o secretário enxerga o Brasil: um país não amigo, governado por uma gestão que não é totalmente alinhada. “Ele lida com o Brasil desde um prisma ideológico”, apontou.
“Ao Brasil é imposto um mesmo tratamento que qualquer outra república latino-americana. Isso é uma coisa que incomoda muito ao Brasil em geral, e a esse governo em particular. Esse governo tem reivindicado um tratamento à altura do peso político e econômico que o país tem na região e no contexto internacional”, acrescentou a analista.
Hirst avalia, no entanto, que a lealdade ideológica pode se tornar um obstáculo para o governo e, ao mesmo tempo, um trunfo para a oposição, por ser um “valor altamente cotizado na cartilha da política externa americana”.
Tarifas, facções criminosas e soberania nacional
Os encontros de brasileiros com Donald Trump ocorrem em meio às novas tarifas impostas ao Brasil, à classificação de facções criminosas como organizações terroristas e ao debate sobre soberania nacional, especialmente diante das reclamações da Casa Branca sobre o PIX.
Enquanto Lula reivindica a soberania nacional, Flávio Bolsonaro comemorou a sinalização favorável de Trump à classificação do crime organizado como terrorista. Em seguida, o senador tentou se afastar da acusação de incentivar tarifas contra empresas brasileiras.
Nesta quarta-feira (10), a Quaest publicou uma nova pesquisa sobre a reação dos eleitores a esses temas.
O levantamento aponta que a classificação de facções como organizações terroristas é vista como positiva por 60% dos brasileiros entrevistados, desde que a medida seja adotada pelo governo nacional. Quando a classificação parte de um país estrangeiro, como os Estados Unidos, a opinião fica dividida: 45% são favoráveis, 45% contrários e 10% não souberam ou não quiseram responder.
Sobre as tarifas, 53% acreditam que as sanções norte-americanas prejudicarão empresas brasileiras. Ao mesmo tempo, 47% entendem que Flávio Bolsonaro teve algum grau de responsabilidade pelas novas tarifas, enquanto 35% atribuem culpa ao presidente Lula pelas taxas.
Lula também aparece com saldo positivo na percepção da população sobre os ataques ao PIX. Segundo a pesquisa, 46% acreditam que as novas tarifas são uma retaliação ao PIX. Outros 36% avaliam que as tarifas são uma retaliação ao governo Lula em razão de declarações contra os Estados Unidos.
Para Hirst, as pesquisas indicam que os movimentos da opinião pública não são necessariamente lineares. Segundo ela, “não é porque você está com uma sensação de insegurança que você vai comprar uma determinada narrativa”. Ao mesmo tempo, o levantamento mostra lealdade no campo opositor.
“Mesmo que exista uma visão de mais desconfiança ou de menos aplauso aos candidatos e ao [pré-candidato] específico, o Flávio Bolsonaro, não se está colocando em questão a candidatura”, analisou.
Nesse contexto, Hirst afirma que, apesar de desgastes pontuais para a oposição, uma ruptura entre o bolsonarismo e o trumpismo não está em pauta. Segundo o texto original, o brasileiro ainda se identifica bastante com os Estados Unidos e acredita em seu modelo de desenvolvimento, conforme relatório publicado em abril pela Fundação Friedrich Ebert, organização sem fins lucrativos financiada pelo governo alemão.
“Não vejo o bolsonarismo se apoiando menos no trumpismo como parte da sua estratégia política”, disse Hirst, ao avaliar que “correções cosméticas” devem ser feitas.
“Umas vírgulas que incluam a importância da soberania, frases e termos mágicos como interesse nacional, ou seja, determinados clichês, vão ser incluídos para não parecer que essa é uma opção que vende o país de forma barata aos EUA.”