Movimento anti-imigração na África do Sul ganha força com o aumento do desemprego
Nigerianos relatam mortes de cidadãos em meio a protestos contra imigrantes considerados ilegais.
Em meio aos protestos, saques e capturas realizados por grupos integrados por civis em cidades sul-africanas contra imigrantes que eles consideram ilegais, a Nigéria afirma que dois de seus cidadãos foram mortos em Pretória. A África do Sul, por sua vez, não reconhece as mortes.
A Operação Dudula e o movimento March and March são ondas de manifestações que começaram na década de 1990, vez ou outra reaparecem e voltaram a inflamar nos últimos meses. O internacionalista Alexandre dos Santos explica que esse movimento anti-imigração nasce em localidades pobres e se parece muito com milícia. "É um movimento xenófobo contra pessoas tão pobres quanto e com tantas carências quanto quem está se levantando contra elas. Na verdade, isso tudo é um grande somatório de situações: você tem uma frustração social muito grande, uma incapacidade do Estado sul-africano de distribuir riqueza e distribuir bem-estar para essas pessoas que são muito pobres, continuam pobres e vão cada vez mais empobrecendo desde o fim do Apartheid."
A antropóloga Barbara Marciano ressalta que a indignação é seletiva e direcionada justamente contra imigrantes de países como Moçambique, Malawi e Zimbábue. Segundo Santos, mais do que xenofobia, a perseguição pode ser descrita como "afrofobia" ou "aparofobia" — o preconceito contra pessoas pobres ou em situação de vulnerabilidade. Santos aponta, ainda, indicadores que contribuem para a ebulição desse caldeirão social cujo resultado são os ataques violentos contra imigrantes.
Conforme o analista, citando dados da Statistics South Africa, a taxa de desemprego no país é de 33%. Em áreas mais pobres, o número chega a 70%. Como a África do Sul há muitos anos combina desemprego alto, desigualdade extrema e serviços públicos ruins em uma estrutura muito racializada, em áreas mais pobres, a "exceção é ter emprego", diz. Para os analistas, a postura da população sul-africana é totalmente equivocada, uma vez que a cobrança deveria ser institucional. Por outro lado, os governantes parecem não impor uma oposição aos protestos.