O papel do turismo na dinâmica de poder na Antártica
Estudo revela como o aumento de visitantes pode influenciar a geopolítica na região.
Embora pareça exótico, o turismo na Antártica entre 2025 e até meados deste ano teve mais de 110 mil visitantes, segundo a Associação Internacional de Operadores de Turismo da Antártica (IAATO, na sigla em inglês). Apesar de ser algo ligado ao lazer, o fato reacende o debate sobre a exploração em um território que, em tese, deve ser neutro.
Dados da IAATO apontam que, no período de 2024–2025, os turistas com nacionalidade dos EUA lideram o ranking, com 41%, seguidos pela China, com 10%. O Brasil, país que possui, no âmbito governamental, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar), aparece na oitava posição de visitantes, com 2%.
Nesse sentido, Nathália Magalhães Macedo, pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), em entrevista à Sputnik Brasil, contextualiza os impactos políticos dessa movimentação na zona antártica.
"Isolado, o turismo não garante direitos territoriais, mas pode contribuir para justificar a expansão de investimentos em embarcações de abastecimento, estrutura portuária, a busca por rotas marítimas alternativas regulares e o desenvolvimento de aeronaves e aeródromos. Todos esses elementos acabam compondo cadeias logísticas que podem, no futuro, adquirir uma importância ainda maior", disse.
A pesquisadora, que publicou seu estudo "O preço do turismo: entre presença, influência e poder na Antártica" no Boletim Geocorrente do NAC/EGN, não descarta que a presença desses turistas possa ser usada por governos de seus respectivos países para influenciar a opinião pública sobre a questão de ocupação territorial.
"Se a presença de um país for desproporcionalmente maior do que a dos outros no continente, isso pode movimentar a opinião pública para uma eventual contestação e revisão do tratado. [Nesse cenário] pode ter apoio da população para poder fazer alguma coisa. Mas isso depende muito do cenário geopolítico e de outras variáveis", comenta.
Sistema do Tratado Antártico não permite soberania
O Tratado da Antártica tem como prerrogativa manter a localidade neutra, ou seja, não pertencente a um determinado Estado, e por isso impede reivindicações territoriais formais, para que a área seja preservada e dedicada à pesquisa por meio de programas antárticos governamentais e ao uso pacífico, como explica Nathália.
"Teoricamente, a Antártica pode ser considerada como recurso de uso comum, mas não excludente. O que significa dizer que é impossível impedir que as pessoas usufruam do continente, desde que para fins pacíficos e científicos. Só que [a movimentação do turismo] acaba priorizando ganhos privados que vão impor ali custos coletivos, tanto ambientais quanto institucionais", destaca.
Outro ponto levantado pela especialista é que, conforme se amplia a presença humana no local que deveria ser mais preservado, o futuro da Antártica tende a ser palco de disputas geopolíticas.
"O turismo não parece, mas vai normalizando cada vez mais essa presença humana enquanto fonte de legitimidade política e, obviamente, a questão da influência em eventual cenário de revisão ou contestação do próprio Tratado da Antártica. Então, tende a fortalecer as condições, tanto políticas quanto estratégicas, para influenciar uma negociação que venha a ocorrer", observa.
Dinâmica de turismo intenso afeta o meio ambiente
Com o avanço da presença humana, que envolve diversos vetores como estrutura física e movimentações constantes administradas por operadoras do ramo turístico, Nathália frisa que esse tipo de atividade pode causar impactos ambientais severos para o ecossistema polar.
"O que mais preocupa em relação à Antártica são essas mudanças ambientais, que são um produto de processos cumulativos. Muito se fala sobre o declínio precipitado do gelo marinho desde 2016, mas esse evento é excepcional em relação à própria variabilidade natural dos últimos três séculos. Isso já é um indício muito forte de uma mudança para um regime menos estável", conclui.
Cada vez mais têm sido recorrentes no cenário internacional disputas que envolvem fluxos estratégicos, como acontece no estreito de Ormuz, por exemplo. Logo, novas rotas são prospectadas por países e, dessa forma, surge a necessidade de se explorar novos territórios. Com as mudanças climáticas que impactam lugares extremos como o Ártico e a Antártica, esses territórios tornam-se ativos geopolíticos cobiçados.